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SOBRE AMOR, ARQUITETURA E OUTRAS ARTES.

  Há quem atravesse a vida guiado pela lógica das coisas, pela solidez dos fatos e pela segurança daquilo que pode ser medido, calculado e compreendido. E há beleza nisso. Afinal, a arquitetura também nasce da precisão. Cada parede possui sua razão de existir, cada abertura dialoga com a luz, cada espaço responde a uma necessidade humana muito concreta. Mas nem tudo o que sustenta uma existência cabe em plantas, escalas ou cálculos estruturais. Existe um território silencioso onde habitam a música, a poesia, a fotografia, os sonhos e o amor. E, curiosamente, todas essas coisas obedecem a leis próprias, tão rigorosas quanto invisíveis. Uma canção sabe exatamente quando o silêncio deve falar. Um poema conhece o peso exato de cada palavra. Uma fotografia compreende que determinados instantes merecem permanecer. E o amor, talvez a mais complexa de todas as artes, insiste em construir moradas dentro de nós sem jamais consultar engenheiros ou cronogramas. Há também os sonhos. Esses antig...

DIÁRIO DE GUERRA

  Planejamento Estratégico Toda guerra começa da mesma forma: com um excesso de confiança. Olhei para o projeto, para o cronograma e para as planilhas e tive a ousadia de acreditar que, desta vez, tudo aconteceria dentro do previsto. O cliente compartilhava da mesma convicção. Havia uma ingenuidade quase comovente em todos nós. Falávamos sobre prazos com a tranquilidade de quem ainda não havia sentido o cheiro da poeira da demolição. Organizávamos equipes, distribuíamos tarefas e traçávamos estratégias como generais diante de mapas cuidadosamente desenhados, absolutamente convencidos de que dominávamos o território. Não dominávamos. Ninguém domina uma obra. No máximo, negocia uma rendição temporária com o caos. Dia 1 — A Invasão Hoje começou a campanha. As primeiras marretadas ecoaram pelo apartamento como o anúncio oficial de que não havia mais possibilidade de retorno. Em poucas horas, aquilo que antes era um ambiente perfeitamente habitável transformou-se numa paisagem de ruínas...

EFEITO BORBOLETA

         Há quem acredite que o universo seja regido por leis matemáticas impecáveis, como uma engrenagem perfeita movida por lógica, previsibilidade e relações elegantes de causa e efeito. Será? Essas pessoas claramente nunca tiveram uma peça solta despencando exatamente do lugar errado, na hora errada, sobre a própria cabeça. Era um dia comum.  E talvez tenha sido justamente esse o problema. Porque os grandes acontecimentos costumam chegar disfarçados de insignificância.  Ninguém percebe uma borboleta quando ela passa.  Só percebe o furacão.  Até que o universo, aparentemente entediado, resolve testar sua teoria favorita. O caos. Tenho para mim que existe algum departamento cósmico responsável por isso. Uma repartição escondida em algum canto burocrático da eternidade. — Alguma pauta para hoje? — Nenhuma. — Ótimo. Soltem uma borboleta. — E depois? — Depois observamos. Silêncio. Assinaturas. Carimbo. Ata aprovada. E, em algum lugar da realid...

SOCIALISTA DE IPHONE

  Chamar alguém de “socialista de iPhone”  (dá até sono) não é um argumento — é uma piada pronta que se repete tanto que já perdeu até a graça.  Funciona como uma buzina ideológica: faz barulho, chama atenção, mas não diz absolutamente nada (somente diz o quanto a ignorância ainda impera). A expressão tenta resolver um debate político complexo com a lógica de um fiscal de consumo alheio.  Como se bastasse olhar o celular, o carro na garagem ou o assento no avião para emitir um laudo ideológico definitivo: “incoerente” . É confortável, rápido e dispensa qualquer esforço intelectual.  Um sonho. O socialismo, em suas múltiplas correntes — aquelas que exigem leitura, algo sempre inconveniente — não propõe a renúncia ao conforto, à tecnologia ou a qualquer forma de bem-estar. Propõe oportunidades para que todos tenham acesso a bens de consumo dentro do sistema em que vivem. Ele critica as relações de produção , a concentração de riqueza, a exploração do trabalho e ...

O OCULTO ESCANCARADO (versão implícita)

Há coisas que não se dizem porque nunca encontraram forma adequada. Ficam suspensas. Entre uma pausa e outra. Entre o que quase acontece e o que é interrompido por hábito. Vivem nesse espaço confortável onde nada precisa ser nomeado. Onde o silêncio cumpre melhor a função do que qualquer explicação. São verdades que não pedem voz. Pedem permanência. O que existe ali não começa em um ponto claro. Não tem início reconhecível. Apenas uma continuidade estranha, como se algo tivesse sido acionado muito antes da mente perceber. Uma familiaridade sem origem definida. Não chega a ser íntima. Também não é distante. Insiste como certas ideias que retornam sem convite, não porque são urgentes, mas porque nunca foram resolvidas. Fingir, nesse contexto, não é escolha. É adaptação. Uma forma elegante de manter o mundo em ordem quando a ordem ameaça falhar. Há coisas que, quando ganham forma concreta, deixam de ser administráveis. Então permanecem no campo do vago. Do quase. Do não dito funcional. Na...

QUANDO SÓ REMEDIO CONTROLADO NÃO É O SUFICIENTE.

  Tive uma cliente que parecia acreditar fielmente que eu vinha com um   manual de risco conjugal   anexado ao contrato. Na verdade, se eu soubesse o que estava por vir, teria incluído um adicional de insalubridade.  Não era um projeto de arquitetura: era um protocolo de insegurança emocional, com cláusulas invisíveis e punições silenciosas. Desde o primeiro encontro, ficou claro que eu representava uma ameaça tácita — não ao orçamento, não ao cronograma, mas ao   casamento.  E isso justificava, aos olhos dela, um tratamento que oscilava entre a antipatia declarada, a grosseria e a falta de educação cotidiana cuidadosamente cultivada.  Bom dia nunca era bom, respostas vinham sempre no modo econômico e qualquer tentativa de cordialidade minha era recebida como uma provocação pessoal. O marido, coitado, tornou-se uma espécie de figura mitológica: todo mundo falava dele, mas ele nunca podia estar no mesmo ambiente que eu.  Se eu entrava pela por...

PATRIOTISMO

O Brasil não virou um manicômio por falta de remédios. Virou por excesso de certezas. Nos últimos anos, a polarização política deixou de ser debate e passou a ser identidade, religião e, em muitos casos, fantasia de carnaval fora de época.  As pessoas tiraram os véus, as máscaras, a vergonha na cara — e algumas tiraram até a noção.  Mostraram exatamente quem são e o que pensam (parece uma loucura imaginar que essas pensoas pensam). E foi aí que descobrimos: fascistas, preconceituosos, racistas e insanos conviviam conosco no grupo da família do WhatsApp e em lugares que jamais imaginaríamos. E antes que alguém se ofenda: todo ativismo radical, de qualquer lado, tem um talento especial para transformar causas importantes em algo chato, inútil e barulhento.  A pauta morre, o objetivo some e sobra apenas uma gritaria coletiva, cheia de ódio e zero conteúdo. Até aí, tudo bem.  Radicais sempre existiram. A surpresa veio quando percebemos que, além de radicais, muitos eram...

CORRER

Sempre quis correr, mas nunca entendi muito bem o porquê. Às vezes não fazia sentido algum ver pessoas correndo pelas ruas com expressões faciais que não favoreciam em nada a estética urbanística — nem a delas próprias. Era gente correndo com cara de quem tomou decisões erradas na vida e agora estava tentando compensar no asfalto. Eu observava aquilo tudo e pensava: isso não pode ser saudável nem espiritualmente aceitável . Minhas tentativas de meditar sempre falharam miseravelmente. Como já citei em algum outro texto, meu cérebro — o Usain Bolt — vive em treino de tiro. Principalmente quando me deito para dormir. Não existe meditação guiada, música ambiente, voz suave ou aplicativo premium que consiga fazê-lo parar. Meu cérebro não medita. Ele foge. Ele planeja. Ele cria cenários absolutamente desnecessários. Se era pra imaginar uma floresta, surgia o Leatherface com sua motoserra, devastando tudo. Se era pra imaginar o mar, eu automaticamente me colocava em Sumatra, visualizava ...

O SEGREDO (para www.mulherices.com.br)

Sim, eu tenho segredos, quem não os tem? Na verdade, eu imagino que nós, mulheres, temos mais segredos que qualquer outro ser. Claro que não estou falando de segredos que abalariam o Sistema Solar, tipo  ‘eu sei compactar Hidrogênio na minha própria cozinha’  ou  ‘eu ajudei o Bin Laden passando a planta do World Trade Center em arquivo dwg’ . Não. Eu estou falando de pequenos segredinhos que guardo desde que sei que existo (logo, penso). Por exemplo: Eu, simplesmente, ADORO ir à Rua 25 de março quando vou para São Paulo. Eu conheço todas as “bocas” lá. Quem nunca foi que atire o primeiro chinês  na minha cabeça. (ah, eu falo "chinês" quandou vou até lá, tipo blusa blanca ou blusa pleta, e isso é um grande segredo também). Eu mexo refrigerante com garfo para sair o gás. Gosto muito sem gás e sem gelo. Este é um segredo de grande porte, uma vez que esse lance de ‘tirar gás do refri’ é algo de gosto duvidoso (e falar/escrever “refri" também). Eu ...

MINHA CASA, MINHA VIDA

Com o programa de financiamento implantado no Governo Lula, Minha Casa, Minha Vida, a classe emergente brasileira passou a enfrentar um problema gravíssimo, silencioso e criminosamente ignorado:  o déficit habitacional das residências de alto padrão. O descaso das construtoras passou dos limites quando começaram a construir apartamentos com apenas duas suítes e - pasmen - dependência de empregada que cabem duas “secretarias” de porte médio.  Um atentado arquitetônico, social e, sobretudo, humano. Já não bastava ter que dispor das economias em paraísos fiscais, ainda teriam que passar por essa humilhação e falta de pertencimento em sua própria classe social. Dias atrás, entrei num Condomínio de luxo na Barra da Tijuca e confesso que fiquei com a alma leve. Percebi que alguns poucos, porém abastados, resolveram se unir para reverter essa injustiça histórica e mostrar para essa maioria que usufrui das benesses do governo, que eles também querem seu lugar no mundo. Com t...

O FIM DO MEU MUNDO

Pois é. E agora? O mundo não acabou hoje. Claro que essa história de Fim do Mundo tinha que vir embalada em discurso religioso alarmista, desses que anunciam o apocalipse junto com instruções bancárias. Nada une mais as pessoas do que o medo… e um bom TED espiritual. Sou totalmente suspeita para falar desse universo (desculpem se generalizo), mas existe um pequeno detalhe que compromete minha neutralidade: um calote celestial de mais de seis dígitos , aplicado por alguém muito seguro da salvação alheia. Resultado: sete anos trabalhando exclusivamente para pagar as dívidas do meu “terreno no céu” . Pelo valor, devo ser dona de uma cidade inteira, com zoneamento aprovado e vista eterna. Meu CPF, desde então, entrou em estado de possessão permanente. Sou hoje sócia majoritária do SERASA e do SPC. Uma experiência mística profunda. Aleluia. Mas vamos falar de coisas boas. Vamos falar do Fim do Mundo . Sabendo que o mundo acabaria hoje, 21 de maio de 2011, resolvi viver como se...

BOM DIA COM QUALY! (2010)

O despertador nem precisa tocar. Eu já acordo. Não porque sou produtiva, mas porque a ansiedade faz plantão noturno. Saio pra correr bem cedo, som alto, musicas animadas para que eu possa acreditar, pelo menos nesse momento, que a minha vida está sob controle.    Contemplo as árvores do caminho, as ruas, as casas. Até as pessoas eu consigo contemplar.  Ainda consigo olhar para elas sem ódio. E isso é importante. Muito importante.    Chego em casa, tomo um banho e, linda, leve, e solta, acredito - erroneamente - que estou pronta para um novo dia. Nisso, já são quase 8:00 da manhã, e meu celular começa a tocar. (comece concentrando-se na sua respiração...)   ( pq daqui a pouco não  vou saber como se faz)   O dia começou. O que deu pra fazer até o primeiro toque, deu. Pego o carro com o celular pendurado na orelha, manobro sem consciência plena e vou. Vou à luta.    Nisso, já deve ser umas 8:30 e meu celular já deve ter tocado umas 8 veze...