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EPÍLOGO

  Eu tinha rasgado o mapa. Naquele dia, achei que aquilo bastaria. Foi por impulso, mas aquela cidade me causava medo. Ao mesmo tempo, alguma coisa ainda me atraía para dentro dela. Era uma providência razoável: sem mapa, sem caminho; sem caminho, sem retorno. E havia o medo. Muito medo. Foi uma decisão tomada sem consulta pública e aprovada por unanimidade por uma comissão formada exclusivamente por mim. Uma dessas soluções urbanísticas que não aprendemos na Faculdade. Aprendemos no dia a dia, caminhando e sentindo cada lugar por onde passamos. Só esqueci de considerar que certos trajetos, depois de percorridos muitas vezes, deixam de depender de mapa. A gente decora. Não os nomes das ruas, necessariamente, mas os acidentes do percurso. A esquina onde é preciso diminuir a velocidade. A avenida que parece levar ao centro, mas muda de direção sem aviso e me deixa completamente perdida. Essa cidade sempre teve um desenho urbano bastante particular. Seu traçado não obedecia a nenhuma ...

DURKHEIM PEGOU O ELEVADOR

          Sempre achei que Durkheim tivesse escolhido o lugar errado para estudar a sociedade.  Universidades? Praças? Instituições?  Nada disso.  Se ele tivesse passado uma única manhã num prédio com 399 apartamentos em plena fase de reforma, teria economizado anos de pesquisa.           O cenário é simples: três elevadores. Mas apenas um chega aos subsolos. O que, na prática, significa que quase quatrocentos apartamentos em obra compartilham um único elevador capaz de transportar marceneiros, marmoristas, pintores, gesseiros, eletricistas, carrinhos de ferramentas, chapas de MDF, portas, bancadas, espelhos, caixas, escadas e, eventualmente, seres humanos.           E existe um detalhe importante: é justamente nos subsolos que se consegue estacionar um carro de carga.  Imagine, portanto, quase quatrocentos apartamentos sendo feitos ao mesmo tempo.  Agora imagine ...

A Cidade dos Desvios

    Cheguei à cidade por acidente. Não havia planejado a viagem, mas, por um desvio de rota, acabei conhecendo-a. O destino apenas a colocou no meu caminho, como acontece com certos lugares que acabam entrando na nossa vida sem pedir licença. Confesso que, naquele primeiro dia, fui embora sem entender muito sua urbanidade. Não encontrei uma arquitetura exuberante, não havia monumentos grandiosos aparentes nem paisagens capazes de justificar uma mudança de rota. Era uma cidade discreta. Tão discreta que quase passava despercebida. Se me perguntassem naquela noite o que eu havia achado, provavelmente responderia que era agradável, organizada e só. Hoje penso que algumas cidades têm a inteligência de não revelar tudo na primeira visita. Voltei. A princípio porque existia um motivo perfeitamente razoável para isso. Depois, porque sempre surgia algum detalhe que parecia merecer uma segunda observação. Uma rua vista sob outra luz, uma fachada para a qual eu não havia prestado aten...

VIDA ADULTA

  Existe uma fase da vida em que você percebe uma coisa muito curiosa: deveria estar pior. Foi exatamente isso que me contaram. Disseram que, depois de certa idade, tudo começaria a desandar. A memória, os joelhos, o metabolismo, a paciência, a pele, a disposição e, provavelmente, o Wi-Fi também. Só esqueceram de avisar que, junto com algumas dessas pequenas tragédias, acontece um fenômeno bastante interessante: a gente melhora. Não em tudo, claro. Também não vamos exagerar. O joelho continua negociando diariamente com a gravidade e duas folhas de alface ainda conseguem produzir o mesmo efeito de três potes de doce de leite. Mas existe uma versão da gente que só aparece depois de um certo tempo de estrada. E, sinceramente, ela é muito mais interessante do que aquela criatura insegura dos vinte e poucos anos. Hoje eu passo três camadas de rímel e salto para ir à farmácia. No dia seguinte, vou trabalhar de tênis, cabelo desgrenhado e uma serenidade que a minha versão de trinta anos j...

SOBRE AMOR, ARQUITETURA E OUTRAS ARTES.

  Há quem atravesse a vida guiado pela lógica das coisas, pela solidez dos fatos e pela segurança daquilo que pode ser medido, calculado e compreendido. E há beleza nisso. Afinal, a arquitetura também nasce da precisão. Cada parede possui sua razão de existir, cada abertura dialoga com a luz, cada espaço responde a uma necessidade humana muito concreta. Mas nem tudo o que sustenta uma existência cabe em plantas, escalas ou cálculos estruturais. Existe um território silencioso onde habitam a música, a poesia, a fotografia, os sonhos e o amor. E, curiosamente, todas essas coisas obedecem a leis próprias, tão rigorosas quanto invisíveis. Uma canção sabe exatamente quando o silêncio deve falar. Um poema conhece o peso exato de cada palavra. Uma fotografia compreende que determinados instantes merecem permanecer. E o amor, talvez a mais complexa de todas as artes, insiste em construir moradas dentro de nós sem jamais consultar engenheiros ou cronogramas. Há também os sonhos. Esses antig...

DIÁRIO DE GUERRA

  Planejamento Estratégico Toda guerra começa da mesma forma: com um excesso de confiança. Olhei para o projeto, para o cronograma e para as planilhas e tive a ousadia de acreditar que, desta vez, tudo aconteceria dentro do previsto. O cliente compartilhava da mesma convicção. Havia uma ingenuidade quase comovente em todos nós. Falávamos sobre prazos com a tranquilidade de quem ainda não havia sentido o cheiro da poeira da demolição. Organizávamos equipes, distribuíamos tarefas e traçávamos estratégias como generais diante de mapas cuidadosamente desenhados, absolutamente convencidos de que dominávamos o território. Não dominávamos. Ninguém domina uma obra. No máximo, negocia uma rendição temporária com o caos. Dia 1 — A Invasão Hoje começou a campanha. As primeiras marretadas ecoaram pelo apartamento como o anúncio oficial de que não havia mais possibilidade de retorno. Em poucas horas, aquilo que antes era um ambiente perfeitamente habitável transformou-se numa paisagem de ruínas...

EFEITO BORBOLETA

         Há quem acredite que o universo seja regido por leis matemáticas impecáveis, como uma engrenagem perfeita movida por lógica, previsibilidade e relações elegantes de causa e efeito. Será? Essas pessoas claramente nunca tiveram uma peça solta despencando exatamente do lugar errado, na hora errada, sobre a própria cabeça. Era um dia comum.  E talvez tenha sido justamente esse o problema. Porque os grandes acontecimentos costumam chegar disfarçados de insignificância.  Ninguém percebe uma borboleta quando ela passa.  Só percebe o furacão.  Até que o universo, aparentemente entediado, resolve testar sua teoria favorita. O caos. Tenho para mim que existe algum departamento cósmico responsável por isso. Uma repartição escondida em algum canto burocrático da eternidade. — Alguma pauta para hoje? — Nenhuma. — Ótimo. Soltem uma borboleta. — E depois? — Depois observamos. Silêncio. Assinaturas. Carimbo. Ata aprovada. E, em algum lugar da realid...

SOCIALISTA DE IPHONE

  Chamar alguém de “socialista de iPhone”  (dá até sono) não é um argumento — é uma piada pronta que se repete tanto que já perdeu até a graça.  Funciona como uma buzina ideológica: faz barulho, chama atenção, mas não diz absolutamente nada (somente diz o quanto a ignorância ainda impera). A expressão tenta resolver um debate político complexo com a lógica de um fiscal de consumo alheio.  Como se bastasse olhar o celular, o carro na garagem ou o assento no avião para emitir um laudo ideológico definitivo: “incoerente” . É confortável, rápido e dispensa qualquer esforço intelectual.  Um sonho. O socialismo, em suas múltiplas correntes — aquelas que exigem leitura, algo sempre inconveniente — não propõe a renúncia ao conforto, à tecnologia ou a qualquer forma de bem-estar. Propõe oportunidades para que todos tenham acesso a bens de consumo dentro do sistema em que vivem. Ele critica as relações de produção , a concentração de riqueza, a exploração do trabalho e ...

O OCULTO ESCANCARADO (versão implícita)

Há coisas que não se dizem porque nunca encontraram forma adequada. Ficam suspensas. Entre uma pausa e outra. Entre o que quase acontece e o que é interrompido por hábito. Vivem nesse espaço confortável onde nada precisa ser nomeado. Onde o silêncio cumpre melhor a função do que qualquer explicação. São verdades que não pedem voz. Pedem permanência. O que existe ali não começa em um ponto claro. Não tem início reconhecível. Apenas uma continuidade estranha, como se algo tivesse sido acionado muito antes da mente perceber. Uma familiaridade sem origem definida. Não chega a ser íntima. Também não é distante. Insiste como certas ideias que retornam sem convite, não porque são urgentes, mas porque nunca foram resolvidas. Fingir, nesse contexto, não é escolha. É adaptação. Uma forma elegante de manter o mundo em ordem quando a ordem ameaça falhar. Há coisas que, quando ganham forma concreta, deixam de ser administráveis. Então permanecem no campo do vago. Do quase. Do não dito funcional. Na...

PATRIOTISMO

O Brasil não virou um manicômio por falta de remédios. Virou por excesso de certezas. Nos últimos anos, a polarização política deixou de ser debate e passou a ser identidade, religião e, em muitos casos, fantasia de carnaval fora de época.  As pessoas tiraram os véus, as máscaras, a vergonha na cara — e algumas tiraram até a noção.  Mostraram exatamente quem são e o que pensam (parece uma loucura imaginar que essas pensoas pensam). E foi aí que descobrimos: fascistas, preconceituosos, racistas e insanos conviviam conosco no grupo da família do WhatsApp e em lugares que jamais imaginaríamos. E antes que alguém se ofenda: todo ativismo radical, de qualquer lado, tem um talento especial para transformar causas importantes em algo chato, inútil e barulhento.  A pauta morre, o objetivo some e sobra apenas uma gritaria coletiva, cheia de ódio e zero conteúdo. Até aí, tudo bem.  Radicais sempre existiram. A surpresa veio quando percebemos que, além de radicais, muitos eram...

CORRER

Sempre quis correr, mas nunca entendi muito bem o porquê. Às vezes não fazia sentido algum ver pessoas correndo pelas ruas com expressões faciais que não favoreciam em nada a estética urbanística — nem a delas próprias. Era gente correndo com cara de quem tomou decisões erradas na vida e agora estava tentando compensar no asfalto. Eu observava aquilo tudo e pensava: isso não pode ser saudável nem espiritualmente aceitável . Minhas tentativas de meditar sempre falharam miseravelmente. Como já citei em algum outro texto, meu cérebro — o Usain Bolt — vive em treino de tiro. Principalmente quando me deito para dormir. Não existe meditação guiada, música ambiente, voz suave ou aplicativo premium que consiga fazê-lo parar. Meu cérebro não medita. Ele foge. Ele planeja. Ele cria cenários absolutamente desnecessários. Se era pra imaginar uma floresta, surgia o Leatherface com sua motoserra, devastando tudo. Se era pra imaginar o mar, eu automaticamente me colocava em Sumatra, visualizava ...