Planejamento Estratégico
Toda guerra começa da mesma forma: com um excesso de confiança.
Olhei para o projeto, para o cronograma e para as planilhas e tive a ousadia de acreditar que, desta vez, tudo aconteceria dentro do previsto. O cliente compartilhava da mesma convicção. Havia uma ingenuidade quase comovente em todos nós. Falávamos sobre prazos com a tranquilidade de quem ainda não havia sentido o cheiro da poeira da demolição. Organizávamos equipes, distribuíamos tarefas e traçávamos estratégias como generais diante de mapas cuidadosamente desenhados, absolutamente convencidos de que dominávamos o território. Não dominávamos. Ninguém domina uma obra. No máximo, negocia uma rendição temporária com o caos.
Dia 1 — A Invasão
Hoje começou a campanha.
As primeiras marretadas ecoaram pelo apartamento como o anúncio oficial de que não havia mais possibilidade de retorno. Em poucas horas, aquilo que antes era um ambiente perfeitamente habitável transformou-se numa paisagem de ruínas cuidadosamente planejadas. Ou talvez apenas em ruínas. O cliente observava tudo com entusiasmo e registrava cada momento com a alegria de quem acredita sinceramente que a destruição faz parte de um grande e nobre propósito. Eu também sorria. Ainda acreditava no cronograma. Ainda acreditava em mim. Tenho vontade de abraçar aquela mulher inocente que eu era pela manhã e avisá-la do que estava por vir.
Dia 2 — Terra Arrasada
O encanador entrou em cena como quem recebe uma missão de reconhecimento em território hostil. Sua tarefa consistia em localizar tubulações ocultas; sua metodologia, contudo, parecia basear-se na destruição sistemática de tudo o que existia até que alguma delas resolvesse aparecer. Funcionou razoavelmente bem. Descobrimos canos cuja existência ninguém suspeitava e instalações que, muito provavelmente, remontavam a algum período histórico anterior à República. O cliente perguntou se aquilo sempre esteve ali. Olhamos uns para os outros em silêncio e seguimos em frente, como fazem todos os povos civilizados diante de descobertas que prefeririam não ter feito.
Dia 3 — O Levante Elétrico
Os eletricistas chegaram e instauraram uma ordem própria dentro do conflito. Tenho a impressão de que profissionais da elétrica obedecem a leis da física desconhecidas pelo restante da humanidade. Fios surgiam do teto, desapareciam pelas paredes e reapareciam em locais absolutamente improváveis, como se possuíssem vontade própria. O cliente começou a formular perguntas mais específicas e eu desenvolvi a extraordinária habilidade de responder sem responder absolutamente nada. Expressões como "vamos verificar", "isso faz parte da etapa" e "estamos alinhando a execução" tornaram-se instrumentos diplomáticos indispensáveis. Na prática, significavam apenas que ninguém, inclusive eu, compreendia plenamente o que estava acontecendo.
Dia 4 — A Guerra das Alturas
Os gesseiros tomaram o território e trouxeram consigo uma espécie muito particular de inverno. Não uma neve poética ou cinematográfica, mas uma precipitação contínua de pó fino capaz de recobrir absolutamente tudo. O apartamento tornou-se branco. As roupas tornaram-se brancas. Os cabelos tornaram-se brancos. Suspeito que meus pulmões também tenham adquirido algum tom semelhante. O cliente perguntou quando aquela etapa terminaria. Sorri com serenidade, mudei de assunto e compreendi que certos conhecimentos não devem ser compartilhados antes da hora.
Dia 5 — O Cerco
Hoje aprendemos, mais uma vez, que o esquadro é uma construção filosófica e não necessariamente uma realidade material. As paredes não são retas. Os pisos tampouco. Nada está alinhado com nada e, honestamente, começo a acreditar que boa parte das edificações brasileiras foi erguida com base em princípios puramente intuitivos. O cliente desenvolveu o hábito de iniciar frases com a expressão "só uma dúvida". É impressionante como três palavras aparentemente inofensivas conseguem reduzir a expectativa de vida de um profissional experiente. A cada nova dúvida, sinto que envelheço alguns meses.
Dia 6 — A Crise Diplomática
Toda guerra possui um momento em que os aliados começam a reconsiderar suas alianças. O nosso ocorreu numa terça-feira, no final da tarde, depois de uma combinação particularmente infeliz de atraso na entrega, excesso de poeira e uma instalação provisória cuja estética poderia ser descrita, com generosidade, como experimental.
Até então, o cliente participava das decisões, aprovava estratégias e confiava plenamente na comandante da campanha. De repente, porém, algo mudou. Ele já não fazia perguntas; investigava. Já não solicitava informações; interrogava. Fotografias passaram a ser produzidas como provas documentais e cada mensagem enviada carregava a solenidade de um comunicado diplomático entre nações em conflito.
Por algumas horas, considerei seriamente a possibilidade de perder um aliado e ganhar um inimigo. Felizmente, dois cronogramas revisados, uma boa dose de diplomacia e um café estrategicamente oferecido evitaram a abertura de uma segunda frente de combate. A paz foi restabelecida, embora todos soubéssemos que permanecia sustentada por acordos extremamente frágeis.
Dia 7 — A Falsa Vitória
A pintura trouxe esperança. Pela primeira vez em semanas, o ambiente começou a se parecer novamente com um projeto e não com um cenário pós-apocalíptico. As cores surgiram, os acabamentos ganharam forma e experimentei aquela perigosa sensação de que o pior havia passado.
Naturalmente, alguém encostou a mão numa parede recém-pintada.
A guerra prosseguiu.
Dia 8 — O Colapso da Marcenaria
Eu estava equivocada ao imaginar que já havíamos enfrentado o pior. A verdadeira provação chegou hoje, transportada em caminhões e cuidadosamente embalada em papelão.
A marcenaria não representa uma etapa da obra. A marcenaria é uma guerra civil travada dentro da própria guerra.
Caixas bloquearam passagens, painéis recusaram-se a entrar nos elevadores e portas demonstraram uma extraordinária incapacidade de atravessar outras portas. Peças espalhavam-se por todos os ambientes e nem todas pertenciam, aparentemente, ao nosso projeto ou talvez à nossa dimensão.
Montadores discutiam medidas, projetistas conferiam desenhos e fabricantes revisavam arquivos enquanto eu revisava, silenciosamente, todas as decisões que me conduziram até ali. O cliente perguntava se estava tudo certo e eu respondia que sim, evidentemente. O que mais poderia dizer enquanto observava quatro homens adultos tentando compreender por que um armário concebido para medir três metros insistia, por razões que desafiam a matemática e a metafísica, em possuir exatamente dois metros e cinquenta e oito?
Foi nesse instante que compreendi que a marcenaria não testa conhecimentos técnicos. Ela testa a fé.
Dia 9 — As Últimas Escaramuças
Entraram espelhos, luminárias, metais, tomadas e perfis de LED. Pequenos detalhes, dizem alguns. Pequenas batalhas, digo eu. Existe algo profundamente perverso no fato de que os menores elementos possuem a maior capacidade de gerar conflitos.
O cliente já não pergunta quando tudo terminará. Agora pergunta apenas se sobreviveremos. E, pela primeira vez desde o início da campanha, percebo que essa talvez seja a única questão verdadeiramente relevante.
Dia 10 — O Acordo de Paz
Hoje a guerra terminou. Ou algo suficientemente próximo disso para que possamos celebrar.
A poeira finalmente assentou, as ferramentas desapareceram e os grupos de WhatsApp, outrora frenéticos, mergulharam num silêncio quase sobrenatural. O cliente entrou no ambiente pronto, observou cada detalhe e sorriu. Foi um momento particularmente reconfortante, sobretudo porque houve um breve período durante a campanha em que considerei a possibilidade concreta de ele atravessar as fronteiras diplomáticas e unir-se oficialmente às forças inimigas.
Mas a aliança resistiu.
Quanto a mim, retorno desta campanha como uma espécie de Odisseu da arquitetura: vitoriosa, mas emocionalmente irreconhecível. Sobrevivi à travessia, mantive a aliança com o cliente e cheguei ao destino com menos energia, menos ilusões e uma quantidade considerável de passiflora substituindo o sangue nas veias.
O que me preocupa, entretanto, é que a guerra mal terminou e eu já me encontro estudando plantas, organizando recursos e planejando outras duas ou três campanhas em territórios vizinhos.
Talvez seja nesse ponto que Odisseu dá lugar a Dom Quixote.
Porque algumas pessoas aprendem com as próprias batalhas.
Outras trabalham com obra.
Jurei, então, que jamais voltaria a passar por aquilo. Uma promessa sincera, firme e absolutamente inabalável.
Ela durou cerca de quarenta e oito minutos.
Encerro este diário por hoje.
A vitória foi alcançada.
As baixas emocionais foram severas.
E a próxima guerra já está, inevitavelmente, em fase de planejamento.

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