Há quem atravesse a vida guiado pela lógica das coisas, pela solidez dos fatos e pela segurança daquilo que pode ser medido, calculado e compreendido.
E há beleza nisso.
Afinal, a arquitetura também nasce da precisão. Cada parede possui sua razão de existir, cada abertura dialoga com a luz, cada espaço responde a uma necessidade humana muito concreta.
Mas nem tudo o que sustenta uma existência cabe em plantas, escalas ou cálculos estruturais.
Existe um território silencioso onde habitam a música, a poesia, a fotografia, os sonhos e o amor.
E, curiosamente, todas essas coisas obedecem a leis próprias, tão rigorosas quanto invisíveis.
Uma canção sabe exatamente quando o silêncio deve falar.
Um poema conhece o peso exato de cada palavra.
Uma fotografia compreende que determinados instantes merecem permanecer.
E o amor, talvez a mais complexa de todas as artes, insiste em construir moradas dentro de nós sem jamais consultar engenheiros ou cronogramas.
Há também os sonhos.
Esses antigos arquitetos da alma.
Às vezes chegam como poesia, delicados e quase indecifráveis.
Outras vezes apresentam-se em prosa, organizados, descrevendo com clareza aquilo que desejam construir.
Em certos dias, não utilizam palavra alguma. Permanecem apenas no silêncio, como uma melodia que ainda não encontrou seus instrumentos ou como uma casa que existe inteira antes mesmo do primeiro traço sobre o papel.
Por mais que se tente ignorá-los, existem. Às vezes persistem.
Porque alguns sonhos, depois de concebidos, passam a reivindicar o direito de existir.
São como uma nova construção sendo lentamente projetada: primeiro ocupam um terreno invisível, escolhem a posição das janelas, imaginam a incidência da luz, derrubam antigas paredes e, pacientemente, aguardam o tempo necessário para se tornarem realidade.
E, às vezes, o mundo perde a cor.
Os olhos deixam de encontrar encantamento nas pequenas coisas.
A música parece distante.
As palavras silenciam.
As fotografias deixam de capturar aquilo que antes parecia evidente.
Mas a beleza possui seus próprios ciclos.
Ela recua apenas para retornar com mais intensidade.
Então, um dia qualquer, as cores reaparecem mais vivas, as imagens tornam-se mais nítidas, os versos recuperam sua delicadeza e as canções reencontram caminhos que pareciam esquecidos.
É nesse instante que surge uma das mais serenas certezas da existência: o amor também é uma arte.
Não apenas o amor romântico, mas essa força silenciosa que constrói casas, inspira poemas, eterniza fotografias, compõe melodias e alimenta sonhos que insistem em permanecer.
Talvez todas as artes, no fundo, falem da mesma coisa.
A arquitetura organiza espaços.
A música organiza silêncios.
A poesia organiza palavras.
A fotografia organiza o tempo.
E o amor organiza tudo aquilo que, sem ele, permaneceria disperso dentro da alma humana.
Porque algumas verdades não precisam ser explicadas.
Precisam apenas ser contempladas.
Como a luz atravessando uma janela ao final da tarde.
Como uma canção conhecida tocando ao longe.
Ou como a silenciosa e bela certeza de que amar continua sendo a mais nobre de todas as formas de criação.

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