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SOCIALISTA DE IPHONE




 Chamar alguém de “socialista de iPhone” (dá até sono) não é um argumento — é uma piada pronta que se repete tanto que já perdeu até a graça.

 Funciona como uma buzina ideológica: faz barulho, chama atenção, mas não diz absolutamente nada (somente diz o quanto a ignorância ainda impera).

A expressão tenta resolver um debate político complexo com a lógica de um fiscal de consumo alheio. 

Como se bastasse olhar o celular, o carro na garagem ou o assento no avião para emitir um laudo ideológico definitivo: “incoerente”. É confortável, rápido e dispensa qualquer esforço intelectual. 

Um sonho.

O socialismo, em suas múltiplas correntes — aquelas que exigem leitura, algo sempre inconveniente — não propõe a renúncia ao conforto, à tecnologia ou a qualquer forma de bem-estar. Propõe oportunidades para que todos tenham acesso a bens de consumo dentro do sistema em que vivem.

Ele critica as relações de produção, a concentração de riqueza, a exploração do trabalho e as desigualdades estruturais de um sistema que transforma tudo em mercadoria, inclusive gente. 

Em nenhum lugar sério está escrito que, para defender justiça social, seja obrigatório viver mal, sofrer com orgulho ou usar um celular que trava só para provar um ponto.


Mas claro: o problema não é só o iPhone. 

É o carro importado. 

É a viagem de primeira classe. 

É qualquer coisa que lembre que um socialista pode, veja só, ter sucesso individual. 

Nenhuma dessas escolhas é um manifesto político — apesar do esforço hercúleo de quem tenta transformá-las nisso. 

São apenas decisões possíveis dentro do sistema em que todos estamos presos. Porque, surpresa: viver no capitalismo não significa assinar um contrato de fidelidade com ele

Não existe um botão “sair do sistema” escondido no menu de configurações da vida adulta.

Exigir que o socialista seja um asceta é uma ideia genial — especialmente para quem nunca exigiu coerência parecida do outro lado. 

A regra implícita parece ser: “você só pode criticar o sistema se estiver passando dificuldade dentro dele”. Curiosamente, ninguém diz que quem acredita no mérito individual precisa, obrigatoriamente, já ser rico. 

Ninguém afirma que apenas grandes empresários podem defender que o mercado se autorregula. 

E, pasme, ninguém acha estranho um trabalhador que enriquece o patrão todos os dias defender exatamente a lógica que o mantém nessa posição. A incoerência, ao que tudo indica, é seletiva.

Se o argumento fosse levado a sério — o que seria pedir demais — ele funcionaria nos dois sentidos. 

Se um socialista não pode ter conforto, então quem defende a lógica do mercado deveria, por coerência, estar no topo dele. Caso contrário, silêncio. 

Mas esse raciocínio nunca aparece, porque não se trata de coerência. Trata-se apenas de desqualificar o interlocutor sem tocar na ideia.

O ataque ao “socialista de iPhone”, ao socialista de carro importado ou ao socialista que viaja bem ignora algo básico, quase constrangedor de explicar: a crítica não é ao uso, mas ao modelo.

Ninguém chama um ambientalista de hipócrita por usar eletricidade.

Ninguém invalida sua pauta porque ele dirige um carro. Tampouco se diz que alguém que critica a indústria farmacêutica não pode tomar remédios. 

O problema nunca foi usufruir — é a estrutura que permite que poucos usufruam muito enquanto muitos sustentam tudo.

Levado às últimas consequências, esse argumento produz uma obra-prima do absurdo: só poderia criticar o sistema quem estivesse completamente excluído dele. E, como quem está excluído raramente é ouvido, pronto — a crítica desaparece. Um método elegante de silenciamento, disfarçado de piada esperta.

No fim, reduzir uma posição política à garagem, ao celular ou ao assento no avião diz muito menos sobre quem é rotulado e muito mais sobre quem rotula. 

Revela uma dificuldade crônica de discutir estruturas e uma preferência clara por atacar indivíduos. 

É a política no modo deboche: rasa, confortável e absolutamente inofensiva para quem nunca precisou pensar além da própria caricatura.

Mas fica o consolo: consumo não define consciência

Conforto não anula crítica. 

E confundir estilo de vida com ideologia é apenas uma forma preguiçosa — ainda que muito popular — de fugir do debate real.


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