Há coisas que não se dizem porque nunca encontraram forma adequada.
Ficam suspensas.
Entre uma pausa e outra.
Entre o que quase acontece e o que é interrompido por hábito.
Vivem nesse espaço confortável onde nada precisa ser nomeado.
Onde o silêncio cumpre melhor a função do que qualquer explicação.
São verdades que não pedem voz.
Pedem permanência.
O que existe ali não começa em um ponto claro.
Não tem início reconhecível.
Apenas uma continuidade estranha,
como se algo tivesse sido acionado muito antes da mente perceber.
Uma familiaridade sem origem definida.
Não chega a ser íntima.
Também não é distante.
Insiste como certas ideias que retornam sem convite,
não porque são urgentes,
mas porque nunca foram resolvidas.
Fingir, nesse contexto, não é escolha.
É adaptação.
Uma forma elegante de manter o mundo em ordem quando a ordem ameaça falhar.
Há coisas que, quando ganham forma concreta, deixam de ser administráveis.
Então permanecem no campo do vago.
Do quase.
Do não dito funcional.
Nada ali é escândalo.
Também não é calma.
É um tipo específico de disciplina silenciosa,
onde sentir não implica movimento
e perceber não exige resposta.
Por fora, tudo segue o curso esperado.
Por dentro, algo se ajusta o tempo todo,
como quem reorganiza móveis no escuro para não tropeçar.
Nada é explícito.
Mas tudo parece ligeiramente fora do lugar —
o suficiente para ser notado,
não o bastante para ser apontado.
Não há intenção de ruptura.
Há consciência.
E a consciência, às vezes, pesa mais do que qualquer desejo.
O que se mantém não é o impossível,
mas o possível cuidadosamente contido.
Pequenos desvios acontecem.
Nunca o bastante para virar caminho.
Insinuações sutis.
Recuos quase automáticos.
Um equilíbrio estranho entre permitir e conter,
como se a própria permissão viesse acompanhada de limites invisíveis.
Existe algo que se sustenta sem nunca se apresentar por inteiro.
Um acordo sem cláusulas.
Uma compreensão sem palavras.
Tudo funciona porque permanece abstrato.
Nesse arranjo mínimo, quase imperceptível,
algo encontra espaço para existir desde que não se imponha.
Desde que não peça tradução.
Desde que aceite a condição de permanecer em suspenso.
Há vulnerabilidade, mas isso não se expõe.
Ela apenas aparece nos momentos de silêncio mais longo,
nas decisões que parecem excessivamente racionais,
na escolha constante de não atravessar certas linhas
— mesmo quando ninguém está olhando.
Tudo isso pede silêncio bem administrado.
Pede continuar onde está —
oculto,
ainda que perigosamente visível para quem insiste em olhar duas vezes.
Se isso for visto como abstração, continuará sendo.
Se for visto como algo familiar demais,
ainda assim não haverá provas.
Porque o que é verdade, quando permanece indefinido,
não se entrega.
Apenas ronda.

Primeiramente, que bom que voltou a escrever. E, parabéns pelo texto. Sua sensibilidade é tocante. Muito feliz de você estar aqui novamente.
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