Sempre quis correr, mas nunca entendi muito bem o porquê.
Às vezes não fazia sentido algum ver pessoas correndo pelas ruas com expressões faciais que não favoreciam em nada a estética urbanística — nem a delas próprias. Era gente correndo com cara de quem tomou decisões erradas na vida e agora estava tentando compensar no asfalto. Eu observava aquilo tudo e pensava: isso não pode ser saudável nem espiritualmente aceitável.
Minhas tentativas de meditar sempre falharam miseravelmente. Como já citei em algum outro texto, meu cérebro — o Usain Bolt — vive em treino de tiro. Principalmente quando me deito para dormir.
Não existe meditação guiada, música ambiente, voz suave ou aplicativo premium que consiga fazê-lo parar. Meu cérebro não medita. Ele foge. Ele planeja. Ele cria cenários absolutamente desnecessários.
Se era pra imaginar uma floresta, surgia o Leatherface com sua motoserra, devastando tudo.
Se era pra imaginar o mar, eu automaticamente me colocava em Sumatra, visualizava o mar recuar e voltar em forma de uma onda gigante, atropelando tudo à sua frente. Até aí, nenhuma novidade. Meu cérebro sempre foi péssimo com imagens pacíficas e ótimo com catástrofes.
Como sempre gostei de corrida, resolvi começar.
No início, achei sinceramente que a asma fosse vencer. Cada meio metro percorrido era uma apneia obstrutiva disfarçada de atividade física. Uma luta inglória entre pulmões falidos e uma dignidade que já não existia mais. Mas foi justamente aí que descobri algo curioso: a asma obrigava meu cérebro a parar seu processo incessante de criações inúteis e prestar atenção exclusivamente na respiração para que eu conseguisse controlar a asma.
Pronto. Aprendi a meditar.
Não por iluminação espiritual, mas por absoluta necessidade de sobrevivência.
Correr me faz lutar para ser, a cada dia, mais forte. Quando entro naquele estágio elegante de quase morte — onde o corpo implora por misericórdia e a alma considera pedir um Uber — eu volto para o corpo e, sem nenhuma explicação lógica, busco forças não sei exatamente onde para continuar. Talvez do ódio. Talvez do orgulho. Talvez do medo de ter que admitir que desisti. Talvez por amor à corrida mesmo.
E não é só mentalmente que a corrida me ajuda.
Fisicamente — além de colaborar ativamente para que tudo fique flácido, despencado e obedeça cegamente à lei da gravidade — a corrida faz com que eu finalmente gaste toda a energia acumulada no meu corpo. Porque quanto mais meu cérebro acelerava, mais meu corpo tensionava. Quanto mais tensionava, mais energia física se acumulava nos músculos, como se eu estivesse me preparando inconscientemente para uma luta corporal que nunca acontecia. Um corpo em constante estado de alerta, pronto para um ataque que só existia na minha cabeça.
Resultado? Ansiedade.
Muita.
Correr resolveu isso da maneira mais primitiva possível: fazendo essa energia toda, inútil e represada, escorrer pelo asfalto junto com o suor, a dignidade e qualquer resquício de glamour. E, de quebra, ajudou também na parte mental — sempre tentando expulsar, nem que seja temporariamente, o máximo possível daqueles pensamentos repetitivos, rápidos e obsessivos que insistem em morar no meu cérebro como se pagassem aluguel, condomínio e IPTU.
E assim surge meu estado meditativo.
Corro. Corro de mim mesma. Corro dos meus defeitos. Corro dos meus pensamentos.
Tudo isso para treinar, com eficiência e fôlego, o dia em que talvez eu precise correr do oficial de justiça.

Comentários
Postar um comentário