Pular para o conteúdo principal

QUANDO SÓ REMEDIO CONTROLADO NÃO É O SUFICIENTE.





 Tive uma cliente que parecia acreditar fielmente que eu vinha com um manual de risco conjugal anexado ao contrato. Na verdade, se eu soubesse o que estava por vir, teria incluído um adicional de insalubridade. 

Não era um projeto de arquitetura: era um protocolo de insegurança emocional, com cláusulas invisíveis e punições silenciosas.

Desde o primeiro encontro, ficou claro que eu representava uma ameaça tácita — não ao orçamento, não ao cronograma, mas ao casamento. 

E isso justificava, aos olhos dela, um tratamento que oscilava entre a antipatia declarada, a grosseria e a falta de educação cotidiana cuidadosamente cultivada. 

Bom dia nunca era bom, respostas vinham sempre no modo econômico e qualquer tentativa de cordialidade minha era recebida como uma provocação pessoal.

O marido, coitado, tornou-se uma espécie de figura mitológica: todo mundo falava dele, mas ele nunca podia estar no mesmo ambiente que eu. 

Se eu entrava pela porta, ele saía pela janela. 

Se eu estava na sala, ele “precisava resolver algo urgente” que curiosamente durava exatamente o tempo da minha presença. 

Eu viajava nos meus pensamentos intrusivos imaginando onde ele estava e o que estava fazendo para se esconder, no melhor estilo Agente 86. Já imaginei ele fantasiado de arbusto no canto da sala. Sempre achei aquela planta esquisita.

Um balé conjugal coreografado pelo ciúme e pela loucura de uma pessoa.

Ela me tratava mal com uma constância impressionante. 

Não falava quase nada, não me dava uma pista sequer do que queria.

 Minhas explicações técnicas eram interrompidas, minhas sugestões recebidas com desdém e minhas decisões profissionais questionadas como se eu estivesse ali improvisando a própria profissão. 

Era como se cada detalhe do projeto viesse acompanhado de um teste de resistência emocional — e eu estivesse sempre reprovando por simplesmente estar ali. 

E, por ja ter iniciado o trabalho, não quis parar sem finalizar ao menos a primeira etapa. 

Mas, a minha vontade era pular no pescoço dela e arrancar aquele mega-hair com os dentes, os cílios postiços com um alicate e as unhas de gel com um estilete. Mas não. Me mantive sempre com um sorriso (desesperado) profissional.

O bom dia, quando vinha, vinha frio. 

As mensagens, quando vinham, vinham secas.

E os olhares diziam claramente: “eu não confio em você nem para escolher um rodapé, mas, como sou uma inútil, prefiro que você escolha tudo pra mim”.

 Qualquer sorriso profissional meu parecia ser interpretado como uma tentativa de sedução em larga escala. 

Eu, armada apenas com trena e bloco de notas, era vista por ela como uma ameaça ambulante ao casamento dela.

No fim, aprendi que alguns projetos exigem mais do que técnica: exigem paciência, sangue-frio e uma inteligência emocional fora do comum, para não jogar tudo para o ar e perder o réu primario.

Exigem circulação segregada, presença masculina estrategicamente anulada e, se possível, um aviso na porta: “Ambiente hostil para arquitetas, especialmente se for a Aline”.

Em trinta anos de profissão, essa foi a segunda vez que aconteceu. 

Duas mulheres, dois casamentos e a certeza de quem precisa de terapia, não sou eu. 

E eu? Internamente me divirto e me sinto até um pouco lisonjeada, confesso, mas realmente acho que em vez de contratar uma arquiteta, deveriam contratar uma psiquiatra. De prefêrencia feia. (não que eu me ache bonita, mas, pelo jeito, elas acham...)

Entreguei o projeto impecável, dentro do prazo e com profissionalismo intacto.


O casamento, espero, sobreviveu.


E eu sigo trabalhando com o mesmo perigo de sempre: plantas bem resolvidas, bom senso — e terapia. Muita terapia para aguentar.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Então... Foi assim. Como sempre, ele chega e desaba uma tonelada de informações na minha cabeça.  Tudo parecia perfeito, pois eu olhava pra ele, e mexia a cabeça em sinal afirmativo (tipo Figurante da Belíssima em reunião de diretoria), mas na verdade eu estava em outra existência, pensando em qual cor de esmalte eu iria pintar as minhas unhas. Dormi de tanto tédio. Foi inevitável. Percebi que não precisava mais de um ser humano para esquentar meus pés. Fui na Centauro e comprei umas meia ótimas.  Mudas. E eu não precisei mais acordar com câimbra no pescoço e encolhidinha no canto da cama como se tivesse disputando espaço  com um polvo carente. Hoje eu acordei na minha cama. Hoje eu acordei na diagonal, esparramada. Hoje eu acordei deitada com a barriga para baixo e uma perna dobrada, como sempre gostei de dormir. Eu sabia que daquele momento em diante tudo iria mudar. E mudou. Eu não precisava mais entrar no box todas as manhãs para resgatar minha e...

PATRIOTISMO

O Brasil não virou um manicômio por falta de remédios. Virou por excesso de certezas. Nos últimos anos, a polarização política deixou de ser debate e passou a ser identidade, religião e, em muitos casos, fantasia de carnaval fora de época.  As pessoas tiraram os véus, as máscaras, a vergonha na cara — e algumas tiraram até a noção.  Mostraram exatamente quem são e o que pensam (parece uma loucura imaginar que essas pensoas pensam). E foi aí que descobrimos: fascistas, preconceituosos, racistas e insanos conviviam conosco no grupo da família do WhatsApp e em lugares que jamais imaginaríamos. E antes que alguém se ofenda: todo ativismo radical, de qualquer lado, tem um talento especial para transformar causas importantes em algo chato, inútil e barulhento.  A pauta morre, o objetivo some e sobra apenas uma gritaria coletiva, cheia de ódio e zero conteúdo. Até aí, tudo bem.  Radicais sempre existiram. A surpresa veio quando percebemos que, além de radicais, muitos eram...

MINHA CASA, MINHA VIDA

Com o programa de financiamento implantado no Governo Lula, Minha Casa, Minha Vida, a classe emergente brasileira passou a enfrentar um problema gravíssimo, silencioso e criminosamente ignorado:  o déficit habitacional das residências de alto padrão. O descaso das construtoras passou dos limites quando começaram a construir apartamentos com apenas duas suítes e - pasmen - dependência de empregada que cabem duas “secretarias” de porte médio.  Um atentado arquitetônico, social e, sobretudo, humano. Já não bastava ter que dispor das economias em paraísos fiscais, ainda teriam que passar por essa humilhação e falta de pertencimento em sua própria classe social. Dias atrás, entrei num Condomínio de luxo na Barra da Tijuca e confesso que fiquei com a alma leve. Percebi que alguns poucos, porém abastados, resolveram se unir para reverter essa injustiça histórica e mostrar para essa maioria que usufrui das benesses do governo, que eles também querem seu lugar no mundo. Com t...

O ateísmo, ao contrário do que muitos acreditam, não nasce da arrogância de quem “acha que sabe mais”.  Ele nasce, quase sempre, de uma recusa profunda em aceitar explicações que exigem silêncio diante do sofrimento.  É menos uma negação de Deus e mais uma recusa em terceirizar o sentido da dor. É um sentimento de injustiça global. Exploram a fé — que, na minha concepção, é uma das maiores virtudes humanas (virtude essa que eu claramente não possuo e, de verdade, invejo). A fé é uma habilidade quase sobre-humana: ela permite que alguém acredite que existe algo maior olhando por ela, sendo bom o tempo todo. Mesmo quando tudo desmorona. Mesmo quando a água invade a casa e arrasta junto a vida inteira. Mesmo quando o corpo definha num corredor de hospital público. Mesmo quando se nasce no Haiti, no Congo, no Sudão — lugares onde a existência já começa em débito. Mesmo quando a dor de uma doença que te mantém dias, ás vezes meses, numa cama de hospital, sem saber se vai, um dia,...

O OCULTO ESCANCARADO (versão implícita)

Há coisas que não se dizem porque nunca encontraram forma adequada. Ficam suspensas. Entre uma pausa e outra. Entre o que quase acontece e o que é interrompido por hábito. Vivem nesse espaço confortável onde nada precisa ser nomeado. Onde o silêncio cumpre melhor a função do que qualquer explicação. São verdades que não pedem voz. Pedem permanência. O que existe ali não começa em um ponto claro. Não tem início reconhecível. Apenas uma continuidade estranha, como se algo tivesse sido acionado muito antes da mente perceber. Uma familiaridade sem origem definida. Não chega a ser íntima. Também não é distante. Insiste como certas ideias que retornam sem convite, não porque são urgentes, mas porque nunca foram resolvidas. Fingir, nesse contexto, não é escolha. É adaptação. Uma forma elegante de manter o mundo em ordem quando a ordem ameaça falhar. Há coisas que, quando ganham forma concreta, deixam de ser administráveis. Então permanecem no campo do vago. Do quase. Do não dito funcional. Na...

O JOVEM MÍSTICO

                       Nada contra o misticismo. Sério. Inclusive, já flertei com ele. Já tive minha fase alternativa, energética, transcendental e ligeiramente confusa. Mas, macramê com  theta healing  foi um pouco além da minha capacidade cognitiva. Em algum momento, acreditei que imaginar uma vida idílica poderia ser uma boa estratégia. O problema é que a minha realidade parecia mais um congestionamento mental às seis da tarde: pensamento acelerado, buzina interna e absolutamente nenhum sinal verde. A única energia presente ali não era cósmica — era caótica, desgovernada, tal e qual um caminhão sem freio descendo a serra. Cheguei a apostar no reiki. Achei que talvez aquilo me desacelerasse. Ledo engano. Cada sessão em que eu precisava ficar longos minutos deitada, imóvel, enquanto alguém mantinha a mão suspensa sobre mim, me deixava ainda mais agitada. Não pela energia… mas pela consciência absoluta de estar ali, p...