
O Brasil não virou um manicômio por falta de remédios.
Virou por excesso de certezas.
Nos últimos anos, a polarização política deixou de ser debate e passou a ser identidade, religião e, em muitos casos, fantasia de carnaval fora de época.
As pessoas tiraram os véus, as máscaras, a vergonha na cara — e algumas tiraram até a noção.
Mostraram exatamente quem são e o que pensam (parece uma loucura imaginar que essas pensoas pensam). E foi aí que descobrimos: fascistas, preconceituosos, racistas e insanos conviviam conosco no grupo da família do WhatsApp e em lugares que jamais imaginaríamos.
E antes que alguém se ofenda: todo ativismo radical, de qualquer lado, tem um talento especial para transformar causas importantes em algo chato, inútil e barulhento.
A pauta morre, o objetivo some e sobra apenas uma gritaria coletiva, cheia de ódio e zero conteúdo.
Até aí, tudo bem.
Radicais sempre existiram.
A surpresa veio quando percebemos que, além de radicais, muitos eram também completamente alérgicos à História.
Não foi só a ignorância histórica que chocou — foi a criatividade.
Uma criatividade admirável, diga-se de passagem. Argumentos tão absurdos, ações tão improváveis, que em vários momentos eu me perguntei se aquilo era real ou se o Brasil tinha virado um grande reality show experimental, tipo The Truman Show.
Confesso: as cenas eram tristes. Mas também eram engraçadas. E muito.
Pessoas nas ruas pedindo intervenção militar, muitas delas com idade suficiente para terem vivido o golpe de 1964 e todos os horrores daquele período. Um verdadeiro "mini-flash back" histórico — só que sem memória.
Outras chamando alienígenas com celulares apontados para o céu. Aqui eu faço a Glória Pires e digo que não posso opinar, porque até hoje não entendi se era um pedido de ajuda ou uma live. interplanetária.
Pessoas com bandeira de Israel dizendo que estavam defendendo a causa cristã, justificando que Israel é um país cristão. Nesse ponto, o silêncio se torna um gesto de autopreservação intelectual.
Outros, com boné do Trump, acreditando firmemente que ele interviria no Brasil porque tem uma amizade linda, sincera e profunda com o ex-presidente. Uma espécie de romance político internacional que só existe na cabeça de quem acredita.
E então veio o auge da experiência antropológica: pessoas reunidas na porta de quartéis rezando para um pneu. Num primeiro momento, achei que fossem esquerdistas infiltrados fazendo cosplay de patriota. Mas não. Eram patriotas reais, lúcidos, sóbrios, rezando para um pneu (a lucidez e a sobriedade é um fato questionável). Cena triste, simbólica e, infelizmente, hilária.
Mas nada superou o homem pendurado em um caminhão em movimento. Até hoje não entendi o motivo. Não que eu tenha entendido os alienígenas, o pneu ou o quartel… mas se pendurar num caminhão andando exige um nível de convicção que merece estudo psiquiátrico.
O fato é que essas pessoas arrancaram as próprias máscaras e mostraram que o problema nunca foi corrupção.
Nunca foi ética.
Nunca foi moral.
O problema sempre foi um presidente operário.
O problema sempre foi o filho da empregada entrando na universidade.
O aeroporto virar uma rodoviária.
Criticam sem saber fatos, sem olhar ao redor, vivendo em bolhas tão confortáveis que a realidade não chega nem por delivery. Acreditam genuinamente que algumas pessoas nasceram para servir. “Deus quis assim.” (Deus, aparentemente, também quis Wi-Fi e fake news.)
E, claro, não poderia faltar a cereja do bolo: muitos desses patriotas fervorosos, defensores incondicionais da pátria, da bandeira e do hino, fazem questão de ter passaporte europeu. Porque nada diz “amor ao Brasil” como uma cidadania reserva, só por segurança.
Isso deixa tudo muito claro.
E é triste.
Mas também muito patético.
Como conversar com pessoas que não sabem, por exemplo, que quem se aposenta por invalidez não pode trabalhar — nem como autônomo, muito menos em cargo público? E que soltam pérolas desesperadoras como “vagabundo que se aposenta por invalidez por causa de um dedo”.
Quando ouço essa frase (frequentemente), meus olham se reviram em um movimento vertical de 180° em direção ao cérebro.
Diante disso tudo, eu optei pelo silêncio.
Não por concordar.
Mas porque, em certos momentos, o silêncio é o último ato de sanidade num país que resolveu transformar o absurdo em rotina.
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