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MINHA CASA, MINHA VIDA




Com o programa de financiamento implantado no Governo Lula, Minha Casa, Minha Vida, a classe emergente brasileira passou a enfrentar um problema gravíssimo, silencioso e criminosamente ignorado:

 o déficit habitacional das residências de alto padrão.

O descaso das construtoras passou dos limites quando começaram a construir apartamentos com apenas duas suítes e - pasmen - dependência de empregada que cabem duas “secretarias” de porte médio. 
Um atentado arquitetônico, social e, sobretudo, humano.
Já não bastava ter que dispor das economias em paraísos fiscais, ainda teriam que passar por essa humilhação e falta de pertencimento em sua própria classe social.

Dias atrás, entrei num Condomínio de luxo na Barra da Tijuca e confesso que fiquei com a alma leve. Percebi que alguns poucos, porém abastados, resolveram se unir para reverter essa injustiça histórica e mostrar para essa maioria que usufrui das benesses do governo, que eles também querem seu lugar no mundo.
Com tapete persa, de preferência.


Achei tocante, inclusive, a simplicidade e o desapego, ao tentarem criar uma Mini-Miami dentro dos quatro muros que separam os sortudos do financiamento, daqueles injustiçados que precisam usar suas economias no exterior para construir seu próprio universo particular. Afinal, era inadmissível que, só porque têm dinheiro, precisassem se privar de conviver com um Mickey e um Pluto, devidamente com registro em carteira, trabalhando na brinquedoteca do condomínio em período integral.

O condomínio era uma graça.

As ruas tinham palmeiras e coqueiros, criteriosamente posicionados, com sabiás, bem-te-vis e até um ou outro Tuiuiú figurante, para garantir verossimilhança ambiental.

O gazebo comunitário dispensava ar-condicionado por consciência ecológica. 
No lugar, cada família dispunha de um par de eunucos encarregados de abanar os moradores durante o verão. 
Uma solução sustentável, socialmente engajada e geradora de empregos. Afinal, imaginam o impacto ambiental de um ar-condicionado desse porte?


A piscina tinha ondas artificiais e golfinhos contratados - todos vindos do leste do Pacífico - treinados para bater palminhas a cada mergulho dos filhos dos moradores.
 Educação aquática de auto padrão.


Mas, preciso falar que, o que mais me comoveu, foi o lado humanitário dessa gente.

Havia uma área de lazer exclusiva para as empregadas domésticas: frigobar, piscina inflável e - vejam só - uma laje suspensa e barril de chope acoplado.
 Para promover integração, um grupo de pagode cantava "New York, New York" em ritmo de axé, para criar uma ponte  com o gosto musical dos patrões.

O Sistema de Segurança foi projetado pelo James Cameron . Tudo em 3D, para garantir que qualquer invasor fosse rapidamente identificado. Ah, sim, os porteiros usavam óculos 3D.

Logo na entrada do condomínio, cascatas de camarão funcionavam 24 horas para que os visitantes pudessem se servir enquanto aguardavam a autorização para acessar a casa do anfitrião.

A planta básica da casa standard possuía apenas cinco banheiros, porém todos eles com sala de estar individual e lavatório banhado a ouro.

Cada quarto possui uma sala de estar íntimo e sua própria cozinha, com sala de ginástica e sauna.

As salas possuíam ante-salas, salas de estar íntimo e estar social e, cada uma delas, possuía sua própria sala de estar íntimo e estar social que também possuíam suas próprias sala de estar íntimo e estar social, e, por aí vai (me perdi).

Claro que tudo isso, decorado com colunas e capitéis jônicos, dóricos e coríntios, frontões romanos em Mármore Carrara e discretos filetes de outro. 
Um primor de contenção (e loucura) estética.

Uma moradora chegou a me convidar para redecorar o lado sul - mais precisamente o hall de entrada da primeira ante-sala das dependências de empregada - mas desistiu porque soube que meu carro vale menos que a bolsa que ela estava usando.

Saí do condomínio refletindo sobre como o Brasil evoluiu.

Enquanto alguns lutam por financiamento para sair do aluguel, outros lutam para não serem confundidos com a classe média.

Enquanto uns disputam migalhas, outros disputam status.

Enquanto o Estado fala em moradia digna, há quem precise reafirmar diariamente que dignidade, para eles, vem com mármore, cuba esculpida e segurança em 3D.

No fim das contas, todos querem a mesma coisa:

um teto: para uns, com afrescos, e, para outros, não importa, só precisam se proteger do sol e da chuva.

sensação de pertencimento: para uns, terem a sensação de que pertencem à elite, e, para outros apenas pertencerem à um lugar qualquer, que lhes dê abrigo e o mínimo de dignidade.


A diferença é que alguns chamam de estilo de vida e não percebem que existe outras formas de viver, ao lado de fora dos muros de seus condomínios, e, os outros só conseguem acreditar que, a cada dia que sobrevivem, nunca estarão para o lado de dentro dos muros (só ser for para servir).


Achei coerente.
E absolutamente esclarecedor (ou estarrecedor).






Comentários

  1. Muito hilário...
    Cheguei a ficar com dózinha dessa classe que não tem plano direcionado a eles... rsrs

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  2. Alineee

    Esse comentário é só pra eu deixar um pedido: Volta escrever? *--*

    Bjo

    ResponderExcluir

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