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BOM DIA COM QUALY! (2010)






O despertador nem precisa tocar.

Eu já acordo.

Não porque sou produtiva, mas porque a ansiedade faz plantão noturno.

Saio pra correr bem cedo, som alto, musicas animadas para que eu possa acreditar, pelo menos nesse momento, que a minha vida está sob controle. 

 

Contemplo as árvores do caminho, as ruas, as casas. Até as pessoas eu consigo contemplar. 

Ainda consigo olhar para elas sem ódio.

E isso é importante. Muito importante. 

 
Chego em casa, tomo um banho e, linda, leve, e solta, acredito - erroneamente - que estou pronta para um novo dia.
Nisso, já são quase 8:00 da manhã, e meu celular começa a tocar.

(comece concentrando-se na sua respiração...) (pq daqui a pouco não vou saber como se faz) 

O dia começou. O que deu pra fazer até o primeiro toque, deu.
Pego o carro com o celular pendurado na orelha, manobro sem consciência plena e vou.
Vou à luta. 

 

Nisso, já deve ser umas 8:30 e meu celular já deve ter tocado umas 8 vezes.

Mantenho-me calma, pois o dia está apenas começando e enlouquecer tão cedo demonstra amadorismo.

Liga o pedreiro avisando que a maquita quebrou e que eu TENHO - em caixa alta, sublinhado e com ameaça implícita - que comprar outra, porque, caso contrário, a obra vai parar. 

Claro. Porque tudo depende de mim.

Inclusive a indústria de ferramentas elétricas. 

Só que eu tenho reunião com uma psicopata de uma cliente que me liga 789253467 vezes ao dia, acreditando que isso é uma forma legítima de terapia. 

A reunião foi marcada há mais de uma semana. Não posso desmarcar e nem faltar. 

Enquanto isso, no escritório, o telefone só dá ocupado.

Não por excesso de ligações, mas porque ninguém mais quer atender.

(respire profundamente e imagine uma luz azul entrando no topo de sua cabeça…) (e pedindo demissão)

Enquanto isso, na outra obra, o outro cliente, mala - emocionalmente carente, muito carente - começa a ligar.

E eu não posso atender. 

Ele liga novamente.

Eu não atendo. 

Ele liga.

Eu não atendo.

Ele continua ligando.

Eu continuo não atendendo.

Ele segue acreditando que o mundo gira em torno do hall de entrada dele.

Eu não atendo.

E essa dinâmica segue em um looping infinito por mais umas duas horas até desenvolver um tique nervoso.

   

 ( conecte se com o centro da terra, imagine uma luz rosa emanando amor incondicional por todos os seres da terra…) 
(e agradeça por ainda estar viva)

E, paralelamente, na terceira obra, o outro pedreiro resolve não aparecer, pois estava de ressaca de ontem e, como ganha por dia, ele não se importou e decidiu que hoje seria um ótimo dia para não ganhar. 

E para não me avisar. E para estar com a chave da obra na casa dele.    E para testar a minha capacidade de não cometer homicídio. 

E  o material de construção chegou.                                                  

Não tinha ninguém na obra.

O material voltou para a expedição. 

E só poderá ser entregue daqui 3 dias úteis.

Ah, sim, eles tentaram ligar no escritório, fracassaram, assim como todos nós.

(após três respirações, relaxe todos os músculos de seu corpo…) (e aceite que foi você que escolheu essa profissão)

Saio da reunião, toda suada de nervoso e o banho já venceu faz tempo. Não de calor, mas de ódio.

 
Vou à marcenaria ver como ficaram os móveis que tenho que entregar ainda nesta semana à 500 km daqui (como se fosse um detalhe irrelevante).

Quando chego lá, vejo que minha estagiária imprimiu o desenho na escala errada e o Marceneiro, coitado,  executou o armário o dobro do tamanho. 

Agora o armário serve para:

* Abrigar duas famílias sem-teto.

* Ser usado como Bunker.

* Colocar rodas e fazer um food truck. 

 
Vontadinha de morrer, mas antes, esganar a estagiária, embora saiba que a  culpa é minha que não estava lá para conferir.

O que não traz alívio nenhum. Só mais raiva qualificada. 

(relaxe o músculo da face, antes de pegar o taco de bets…)

Ainda antes do almoço, eu já estou em um estágio terrorista por dentro e um sorriso profissional por fora, e, nesse momento, já não existe mais meditação que resolva a minha fúria.

Chego pra almoçar no lugar de sempre e as pessoas ficam me pedindo "dicas" de decoração o almoço inteiro. 

E eu, nos meus pensamentos intrusivos, planejo vomitar na cara delas.

Eu ainda tenho a tarde toda pela frente, e possivelmente a noite.

Esqueci a agenda.

Existe uma possibilidade concreta de eu ter um cliente às 21:30hs.

 
Não, não é o que vocês estão pensando.

Sim, arquitetos também atendem às 21:30.

Não, não ganhamos como garotas de programa.

Nem o dinheiro do táxi.

Nem o brilho do olhar. 


Começa a tarde e eu tenho que comprar a po%ˆ#a da maquita.


Primeira loja: não tem.

Segunda loja: trânsito digno de filme catástrofe. 

Achei. Vou pagar. Cartão sem limite.

 
Nisso, já estou sentindo pontadas no coração.

Volto pra casa, pego o outro cartão, atravesso a cidade de novo, compro a maquita, volto pra obra.


Entrego a maquita. Ele me pede um vale. 

(Só se for “vale uma passagem para o inferno”).
Respiro, e dou o vale pra ele. Porque sou adulta. Infelizmente.

Agora lembro de retornar para o cliente que ligou 698 vezes.
Retorno, pois pela quantidade de vezes que ele ligou, provavelmente, o prédio dele desabou.

 
Infelizmente não desabou e ele está vivo.

 
Ele está em dúvida se pinta o hall de Verde Musgo ou Verde Menta, apesar da decisão já ter sido tomada após cinco horas de reunião.
(Pinta de verde catarro)

Respiro mais duas vezes. Pondero. Passo lá e redefinimos o tom de verde do hall. De novo, pois tempo é um conceito abstrato.

E agora, com muita raiva dentro de mim, já são quase 18:00 e esqueço de avisar o bebum que está de ressaca e não foi trabalhar, que,  graças à falta dele, a obra vai ficar parada por quatro dias, pois o material só chegara daqui três dias.

 
Ele, com uma voz feliz, diz para eu não me preocupar que lê vai “dar um pau” para finalizar logo a obra.
(Sou eu quem vai dar com um pau bem no meio da sua fuça).

Respiro três vezes , digo que tudo bem , pois não tem o que fazer, e desligo o telefone. (registro mentalmente mais um motivo para fazer terapia).

Assim que dá, paro o carro para dar uma caidinha básica no choro.
Entro em prantos por uns cinco minutos até o celular tocar. 
Mais um cliente. 

Me recomponho e continuo. Sigo funcionando.
Estou exausta. 

Desmarco o cliente das 21:30. O cliente entendeu. Acho que até ele estava cansado. 

Não quero mais ir a lugar nenhum. 


Aliás, se possível, quero ficar sem falar com ninguém até a minha próxima encarnação.

 
A bateria do celular acabou. Finalmente. O único milagre do dia. Pareço uma máquina emocionalmente danificada.

 
Vou pra casa descansar agora. 

Não.

 
Entrei na Avenida Visconde de Guarapuava. Tudo parado. Chego em casa depois de uma hora. (mais velha, mais cansada, menos humana).

 
Vou descansar.



Não. 

 
Os filhos do vizinho resolveram usar a parede do meu quarto como gol oficial da Copa do Mundo do Inferno.


O dia acabou. 

 
Hoje foi um dia como todos os outros. 

Nada fora do esperado. 
Sem maiores novidades.

Nada digno de notas.

Só mais um prego no caixão da sanidade. 

 

Tomo outro banho, faço outra meditação.

 E, finalmente faço a minha oração. 

Para o Santo Rivotril. 

Boa noite.

Até amanhã. (infelizmente)





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