Pular para o conteúdo principal

O ateísmo, ao contrário do que muitos acreditam, não nasce da arrogância de quem “acha que sabe mais”. 

Ele nasce, quase sempre, de uma recusa profunda em aceitar explicações que exigem silêncio diante do sofrimento. 

É menos uma negação de Deus e mais uma recusa em terceirizar o sentido da dor. É um sentimento de injustiça global.

Exploram a fé — que, na minha concepção, é uma das maiores virtudes humanas (virtude essa que eu claramente não possuo e, de verdade, invejo). A fé é uma habilidade quase sobre-humana: ela permite que alguém acredite que existe algo maior olhando por ela, sendo bom o tempo todo. Mesmo quando tudo desmorona.

Mesmo quando a água invade a casa e arrasta junto a vida inteira.
Mesmo quando o corpo definha num corredor de hospital público.
Mesmo quando se nasce no Haiti, no Congo, no Sudão — lugares onde a existência já começa em débito.
Mesmo quando a dor de uma doença que te mantém dias, ás vezes meses, numa cama de hospital, sem saber se vai, um dia, sair com vida dali.

O planeta é rico, vasto, fértil. Produz alimento suficiente para todos. E ainda assim, não alimenta todos. Não por incapacidade natural, mas por escolhas humanas, estruturas econômicas, interesses, poder. Ainda assim, Deus é bom o tempo todo. Talvez seja essa esperança que faça que com essas pessoas achem forças para continuar.

Essa afirmação sempre me intrigou. Não pela crença em si — mas pela lógica que a sustenta.

Quando tudo vai bem, é bênção.
Quando tudo vai mal, é prova.
Quando o homem faz o bem, é Deus agindo.
Quando o homem faz o mal, a culpa não é de Deus.

Porque existe o livre-arbítrio.

Ah, claro. Entendi.

Deus cria um sistema perfeito, permite um mundo estruturalmente desigual, observa a fome, a guerra, a violência, mas permanece isento de responsabilidade porque o homem escolheu mal. O livre-arbítrio funciona como uma cláusula de isenção divina. Uma explicação elegante demais para um mundo brutal demais.

E os animais?

Um cachorro de rua, doente, faminto, espancado. Ele escolheu isso? Exerceu mal seu livre-arbítrio? Ou estamos falando de karma? Será que, em outra vida, ele foi moralmente falho e agora precisa aprender humildade apanhando? A ideia é quase ofensiva de tão absurda — mas ainda assim é repetida com serenidade espiritual.

Atribuir sofrimento a uma lógica cósmica invisível é confortável. Dá ordem ao caos. Dá sentido ao insuportável. O ateísmo, por outro lado, é menos confortável. Ele não oferece consolo metafísico. Ele oferece responsabilidade.

Porque, se não existe um plano maior justificando tudo, então nada disso “precisava” acontecer.
Se não existe um ser superior organizando o sofrimento como método pedagógico, então o sofrimento é falha — humana, social, política, histórica. E, reafirmo: a fé é a força que as pessoas tem de continuar. É a esperança de que tudo vai melhorar. E isso, dentro do contexto de dor e angústia, é muito bom.

E isso dói mais. Dói porque não consigo sentir isso. Sou uma pessoa previlegiada. E muito. Amo demais meu trabalho. Tenho uma família perfeita (médio), tenho ótimos amigos. Aí, a minha luta eterna é entender o porquê eu tenho direito à tudo isso e a maioria das pessoas, não.

Faz todo sentido, então, alguém acordar às quatro da manhã, passar horas amassado em um transporte público, trabalhar até a exaustão, ser humilhado pelo patrão, voltar pra casa à noite, cuidar dos filhos e agradecer a Deus por ganhar ter um emprego enquanto enriquece outra pessoa. A fé transforma exploração em virtude. Transforma resignação em mérito moral. Transforma sobrevivência em gratidão.

Mas Deus é bom.

O tempo todo.

O ateísmo não diz que Deus é mau. Ele diz algo mais perturbador: talvez não exista alguém conduzindo o mundo com intenção moral. Talvez o bem e o mal não estejam equilibrados por uma entidade superior. Talvez tudo o que temos uns pelos outros seja… apenas isso. Uns aos outros.

E, paradoxalmente, isso torna cada ato humano infinitamente mais grave.

Porque, sem Deus para culpar ou agradecer, sobra o homem.
Sem plano divino, sobra escolha concreta.
Sem céu prometido, sobra o agora.

O ateísmo não oferece esperança eterna. Ele exige a consciência de uma realidade cruel. Não cria esperança, e, como dizia Nietche - sem esperança não existe frustração (apesar de tudo, sempre tenho esperança, sem expectativa, o que já é uma vantagem eterna).
Não promete salvação depois da morte. Exige responsabilidade durante a vida.

E talvez seja por isso que ele assuste tanto.

Porque, se Deus não é o responsável final, então somos nós.

E isso é difícil, porque existem pessoas que, a única coisa que as mantém vivas, é a fé. Não foi doutrinada para pensar e questionar a realidade.

Mas Deus é bom o tempo todo.










Comentários

  1. Belíssimo texto! Desejo sinceramente que tu encontre o teu caminho. Beijos

    ResponderExcluir
  2. ESTE É UM DOS TEXTOS Q MELHOR JA ME IDENTIFIQUEI, ACHO Q ENTREI UM POUCO E VC E ENTENDI TUDO O Q QUERIA DIZER, PARABENS PELA SENSIBILIDADE, ME SENTI DE VERDADE MAIS INTIMA DE VC!
    BJOS
    dANI CARELLI

    ResponderExcluir
  3. Aline! Se entendi mesmo vc me assusta. Prefiro achar que sou bronco e burro. Mas... se entendi mesmo, se a mensagem é literal e não há o que entender nas entrelinhas, então, a partir de hoje passo a rezar por ti, até que volte sua Fé. Só não esqueça de me avisar para que eu possa deixar de ter rezar duas vezes.
    Beijo! Vc é impressionante (e eu não sou falso)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

BOM DIA COM QUALY! (2010)

O despertador nem precisa tocar. Eu já acordo. Não porque sou produtiva, mas porque a ansiedade faz plantão noturno. Saio pra correr bem cedo, som alto, musicas animadas para que eu possa acreditar, pelo menos nesse momento, que a minha vida está sob controle.    Contemplo as árvores do caminho, as ruas, as casas. Até as pessoas eu consigo contemplar.  Ainda consigo olhar para elas sem ódio. E isso é importante. Muito importante.    Chego em casa, tomo um banho e, linda, leve, e solta, acredito - erroneamente - que estou pronta para um novo dia. Nisso, já são quase 8:00 da manhã, e meu celular começa a tocar. (comece concentrando-se na sua respiração...)   ( pq daqui a pouco não  vou saber como se faz)   O dia começou. O que deu pra fazer até o primeiro toque, deu. Pego o carro com o celular pendurado na orelha, manobro sem consciência plena e vou. Vou à luta.    Nisso, já deve ser umas 8:30 e meu celular já deve ter tocado umas 8 veze...

O OCULTO ESCANCARADO (versão implícita)

Há coisas que não se dizem porque nunca encontraram forma adequada. Ficam suspensas. Entre uma pausa e outra. Entre o que quase acontece e o que é interrompido por hábito. Vivem nesse espaço confortável onde nada precisa ser nomeado. Onde o silêncio cumpre melhor a função do que qualquer explicação. São verdades que não pedem voz. Pedem permanência. O que existe ali não começa em um ponto claro. Não tem início reconhecível. Apenas uma continuidade estranha, como se algo tivesse sido acionado muito antes da mente perceber. Uma familiaridade sem origem definida. Não chega a ser íntima. Também não é distante. Insiste como certas ideias que retornam sem convite, não porque são urgentes, mas porque nunca foram resolvidas. Fingir, nesse contexto, não é escolha. É adaptação. Uma forma elegante de manter o mundo em ordem quando a ordem ameaça falhar. Há coisas que, quando ganham forma concreta, deixam de ser administráveis. Então permanecem no campo do vago. Do quase. Do não dito funcional. Na...