O ateísmo, ao contrário do que muitos acreditam, não nasce da arrogância de quem “acha que sabe mais”.
Ele nasce, quase sempre, de uma recusa profunda em aceitar explicações que exigem silêncio diante do sofrimento.
É menos uma negação de Deus e mais uma recusa em terceirizar o sentido da dor. É um sentimento de injustiça global.
Exploram a fé — que, na minha concepção, é uma das maiores virtudes humanas (virtude essa que eu claramente não possuo e, de verdade, invejo). A fé é uma habilidade quase sobre-humana: ela permite que alguém acredite que existe algo maior olhando por ela, sendo bom o tempo todo. Mesmo quando tudo desmorona.
O planeta é rico, vasto, fértil. Produz alimento suficiente para todos. E ainda assim, não alimenta todos. Não por incapacidade natural, mas por escolhas humanas, estruturas econômicas, interesses, poder. Ainda assim, Deus é bom o tempo todo. Talvez seja essa esperança que faça que com essas pessoas achem forças para continuar.
Essa afirmação sempre me intrigou. Não pela crença em si — mas pela lógica que a sustenta.
Porque existe o livre-arbítrio.
Ah, claro. Entendi.
Deus cria um sistema perfeito, permite um mundo estruturalmente desigual, observa a fome, a guerra, a violência, mas permanece isento de responsabilidade porque o homem escolheu mal. O livre-arbítrio funciona como uma cláusula de isenção divina. Uma explicação elegante demais para um mundo brutal demais.
E os animais?
Um cachorro de rua, doente, faminto, espancado. Ele escolheu isso? Exerceu mal seu livre-arbítrio? Ou estamos falando de karma? Será que, em outra vida, ele foi moralmente falho e agora precisa aprender humildade apanhando? A ideia é quase ofensiva de tão absurda — mas ainda assim é repetida com serenidade espiritual.
Atribuir sofrimento a uma lógica cósmica invisível é confortável. Dá ordem ao caos. Dá sentido ao insuportável. O ateísmo, por outro lado, é menos confortável. Ele não oferece consolo metafísico. Ele oferece responsabilidade.
E isso dói mais. Dói porque não consigo sentir isso. Sou uma pessoa previlegiada. E muito. Amo demais meu trabalho. Tenho uma família perfeita (médio), tenho ótimos amigos. Aí, a minha luta eterna é entender o porquê eu tenho direito à tudo isso e a maioria das pessoas, não.
Faz todo sentido, então, alguém acordar às quatro da manhã, passar horas amassado em um transporte público, trabalhar até a exaustão, ser humilhado pelo patrão, voltar pra casa à noite, cuidar dos filhos e agradecer a Deus por ganhar ter um emprego enquanto enriquece outra pessoa. A fé transforma exploração em virtude. Transforma resignação em mérito moral. Transforma sobrevivência em gratidão.
Mas Deus é bom.
O tempo todo.
O ateísmo não diz que Deus é mau. Ele diz algo mais perturbador: talvez não exista alguém conduzindo o mundo com intenção moral. Talvez o bem e o mal não estejam equilibrados por uma entidade superior. Talvez tudo o que temos uns pelos outros seja… apenas isso. Uns aos outros.
E, paradoxalmente, isso torna cada ato humano infinitamente mais grave.
E talvez seja por isso que ele assuste tanto.
Porque, se Deus não é o responsável final, então somos nós.
E isso é difícil, porque existem pessoas que, a única coisa que as mantém vivas, é a fé. Não foi doutrinada para pensar e questionar a realidade.
Mas Deus é bom o tempo todo.
Belíssimo texto! Desejo sinceramente que tu encontre o teu caminho. Beijos
ResponderExcluirESTE É UM DOS TEXTOS Q MELHOR JA ME IDENTIFIQUEI, ACHO Q ENTREI UM POUCO E VC E ENTENDI TUDO O Q QUERIA DIZER, PARABENS PELA SENSIBILIDADE, ME SENTI DE VERDADE MAIS INTIMA DE VC!
ResponderExcluirBJOS
dANI CARELLI
Aline! Se entendi mesmo vc me assusta. Prefiro achar que sou bronco e burro. Mas... se entendi mesmo, se a mensagem é literal e não há o que entender nas entrelinhas, então, a partir de hoje passo a rezar por ti, até que volte sua Fé. Só não esqueça de me avisar para que eu possa deixar de ter rezar duas vezes.
ResponderExcluirBeijo! Vc é impressionante (e eu não sou falso)