A TORTURA NECESSÁRIA.
Adoro estar sempre arrumada.
Unhas feitas, cabelo escovado, hidratado e tals.
Mas, na próxima encarnação, gostaria de nascer com uma Fada Madrinha funcional. Daquelas eficientes, que encostam a varinha na minha cabeça e fazem: plin.
Pronto.
Estou impecável. Unhas brilhando, pernas devidamente depiladas e cabelo igual ao da Penélope Cruz — sem esforço, sem conversa e sem trauma.
Na ausência da Fada, aceito um dispositivo autolimpante Walita, desses de liquidificador. Apertou um botão, resolveu. Simples.
Grande erro acreditar que o Salão pode suprir essa lacuna mágica.
Ir ao salão, pra mim, é algo muito próximo de me preparar psicologicamente para uma guerrilha no Quirguistão.
Começa pelo estacionamento.
Estacionar num salão é um espetáculo antropológico à parte.
Considerando que 99% das pessoas ali estacionadas têm uma dificuldade estrutural em compreender o conceito de linha reta, qualquer esperança de paz já morre ali, entre uma vaga inexistente e outra ocupada de forma criativa.
Seria uma experiência minimamente tolerável se as pessoas que trabalham e frequentam salões fossem:
– Rápidas
– E, principalmente, mudas
Imagine: depois de um dia exaustivo de trabalho, você ainda precisar conversar sobre amenidades. Mas não amenidades comuns. Amenidades tão amenas que fazem sua alma sair do corpo e pedir exoneração.
Você fica ali, levemente tonta, sem saber mais se estão falando com você ou consigo mesmas — pleonasticamente falando. Entra num estado de catarse silenciosa.
Até que alguém te cutuca.
E você, com a expressão lânguida e sarcástica, pergunta:
— Hã? Você está falando comigo?
(Frases clássicas. Ninguém entende. Eu amo.)
Odeio amenidades. (mentira, eu adoro)
Além da sua pequena bolha de sofrimento estético, existe o plano de fundo.
Um cenário avícola digno de documentário.
Peruas de todas as espécies imagináveis. Todas as cores, cheiros e texturas possíveis. Uma fauna exuberante.
Coisa linda.
Adoro vê-las saindo com aqueles penteados monumentais, transformando seus cabeleireiros em verdadeiros paisagistas capilares.
Adoro toneladas de laquê sendo pulverizadas, detonando alegremente o que resta da camada de ozônio.
Adoro vê-las consumindo serviços absolutamente dispensáveis e, ao final, passando seus Cartões de Credito ilimitados — muito deles, dos seus maridos que provavelmente estão se matando de trabalhar.
Ou não.
Imaginem o que for mais conveniente.
E a depilação, então?
Como encarar aquelas criaturas tão delicadas segurando uma espátula gigante, espalhando cera quente na sua perna como uma confeiteira serelepe passando doce de leite num bolo de casamento?
O problema é que elas esquecem que o doce de leite seca, vira casca… e queima a pele.
Como olhá-las nos olhos?
Como, meu Deus?
Como não cogitar um crime passional?
Na hora de puxar a cera, elas têm certeza absoluta de que estão arrancando páginas do Alcorão.
E você ali, imóvel, fazendo cara de samambaia no xaxim.
Mas o ápice.
O clímax.
O momento momentUM da experiência traumática:
O lavatório.
Lavar o cabelo no salão é como reencarnar num tanque de lavar roupa.
Seu couro cabeludo vira aquela parte onde as lavadeiras esfregam com toda a força acumulada do universo.
Só que a roupa é você.
E a escova são as pontas dos dedos delas.
Sem dó.
Sem piedade.
Ariando seu cérebro e descontando toda a frustração existencial na sua caixa craniana.
E, para fechar com chave de ouro, na escova, além de te presentear com uma franja que parece uma aba de boné, elas encostam o bico do secador diretamente no seu couro cabeludo já esfolado — como se você fosse termorresistente.
No final de tudo, se você não possui um patrocinador, ainda deixa no caixa o equivalente a uma semana inteira de honorários.
Para pagar a tortura.
Emocionante.
Você sai de lá, já roendo a unha recém-feita.
A escova não dura duas horas — afinal, a umidade relativa do ar de Curitiba raramente colabora com a dignidade humana.
E porque você foi ingênua: passou por tudo isso só para hibernar na sexta e acordar na segunda direto para o trabalho.
Vai chegar em casa, se afundar no edredom, e ninguém jamais saberá do que você passou.
Ninguém viu.
Ninguém ligou.
Aí eu me pergunto se as francesas são mais felizes com as axilas in natura.
Devem ser.
Depois de tudo isso, posso afirmar com tranquilidade que admiro profundamente as mulheres que amam ir ao salão — especialmente aquelas que fazem disso um hobby.
Porque toda vez que eu saio de um, minha única vontade é virar Hare Krishna, raspar o cabelo e ficar igual à Baby Consuelo em 1982 e sair distribuir panfleto na Rua XV.
No fim das contas, eu sigo indo ao salão.
Não porque eu goste.Aprendi que o salão não é sobre beleza.
É sobre resistência emocional, capacidade de abstração e controle da vontade súbita de fugir pela porta dos fundos com a cabeça cheia de papel-alumíni
No fundo, é um teste.
De paciência.
De silêncio interno.
E de fé.
Porque se existir mesmo reencarnação, eu volto como alguém que acorda pronta.
Ou como alguém que nunca mais precisou de salão.
Amém.



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ResponderExcluirMeigo, muito meigo mesmo. Na verdade, são textos como este que me fazem ter muito orgulho do meu matuto cromossomo Y -- cuja simples existência me evita passar por apocalípses estéticos como esse que você tão fielmente descreve.
ResponderExcluirE digo mais: Se eu fosse mulher, também me recusaria passar por tudo isso aí. No máximo uma giletezinha embaixo dos braços e no meio das pernas, de vez enquando. E azar de quem não gostasse -- acho que eu teria uma coleção de vibradores, também.
Fabio Piva
http://paciencianegativa.blogspot.com/
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ResponderExcluirNão consigo imaginar a perda de tempo q é ir a um salão desse...
ResponderExcluirClaro q gostamos de ver as madames sempre limpinhas, cheirosas e depiladas, mas perder um tempo q vc poderia estar andando de bike, correndo, jogando videogame, lendo ou até fazendo nada é impensável.
Ótimo texto, tens um novo fã.
Hugo
Sem Anestesia - www.hugopt.blogspot.coom