
Te amo, simplesmente porque não existe outra possibilidade.
Desde o primeiro dia em que te vi — no instante exato em que coloquei os pés em você, em Assis, na Itália — eu já te amava. Antes mesmo de te entender. Antes mesmo de conseguir me localizar entre suas ruas estreitas, orgânicas e aparentemente indecifráveis.
Amei você no primeiro passo inseguro sobre suas pedras antigas, nas suas subidas íngremes que parecem testar o fôlego e encantamento, nos seus caminhos confusos que não se explicam, apenas se aceitam.
Por mais labirínticos que sejam seus trajetos.
Por mais altos que sejam seus obstáculos.
Ainda assim, valeu cada passo dado por você.
Cada rua que percorri era como um fluxo interno do qual, por um instante, eu fazia parte. Como se minhas veias se alinhassem às suas vielas, e meu ritmo cardíaco passasse a acompanhar o desenho irregular da cidade.
Agora você faz parte do meu coração.
Circula dentro de mim do mesmo modo que suas ruas circulam dentro de você.
Você confundiu minha falta de fé — e me confunde — assim como confunde quem te observa de fora de suas muralhas. Há em você, uma desordem poética, uma lógica própria que não se curva à pressa nem à necessidade de explicação.
Mas foi justamente nessa confusão que algo se revelou.
Naquela noite em que perdi o ônibus que me levaria ao hotel, quando precisei caminhar por horas sozinha, atravessando seus caminhos escuros e desconhecidos, achei que não havia mais saída. E então, quando tudo parecia se fechar, surgiu o Caminho da Luz.
Como um túnel inesperado.
Como se a própria cidade resolvesse me conduzir.
Parecia um portal para o Paraíso — não o religioso, mas aquele raro estado de alívio e encantamento que só alguns lugares conseguem provocar.
A lua, já se despedindo do céu, parecia sorrir para mim.
E ali eu entendi: Assis não se oferece facilmente. Ela exige entrega.
Mesmo sem acreditar em Deus — e, consequentemente, em religião — fui profundamente tocada por São Francisco de Assis. Não pela fé, mas pela trajetória. Pela renúncia, pela simplicidade radical, pela escolha consciente de viver com menos para ser mais. Há algo em Francisco que ultrapassa o dogma e alcança o humano. E talvez seja isso que você carrega impregnado em cada pedra: a ideia de que a grandeza pode morar no essencial, no amor ao próximo através do trabalho e da dedicação.
Uma cidade bela, austera, delicada e inebriante ao mesmo tempo.
Uma cidade que não se molda, não se adapta, não se explica.
E que, ainda assim — ou talvez por isso mesmo — não deixa sequer a possibilidade de não ser amada.
Assis é facil.
Assis é profunda.
E uma vez que entra na gente, não sai mais.
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