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AMOR PLUTÔNICO


Descobri que não vivo um amor platônico.

Isso seria previsível demais.

O meu é plutônico.
Com P de planeta anão,
não de poesia.

O amor platônico vive no mundo das ideias.
É abstrato.
É elegante.
É aquele tipo de amor que se mantém puro
porque ainda não foi colocado à prova
por encontros, horários ou decisões práticas.

O problema do amor platônico
é que ele mora perigosamente perto da realidade.

A pessoa existe.
Respira.
Circula.
Tem endereço fixo, CPF e, em alguns casos, está no mesmo ambiente.

Ou seja:
é uma abstração com acesso físico.

E isso é arriscado.

Basta um jantar inocente,
um “vamos marcar qualquer dia” que deu certo
ou um momento de fraqueza filosófica
e pronto:
o amor que vivia no mundo das ideias
vira um evento com testemunhas.

Já o amor plutônico não corre esse risco.

Ele também vive no mundo das ideias,
mas com uma vantagem logística brutal:
ele acontece em Plutão.

Plutão não está ali.
Plutão não cruza seu caminho.
Plutão não aparece por acaso num domingo à tarde.

Plutão exige nave espacial.

E vamos ser realistas:
não é possível trocar milhas da TAM
por milhas de um foguete da NASA
com destino a Plutão.

Eu já tentei.
No site não aparece essa opção.

O máximo que dá pra fazer
é um voo doméstico
e muita imaginação.

No amor platônico, você ainda pensa:
“vai que um dia a gente se encontra…”.

No amor plutônico, você pensa:
“isso exigiria uma missão espacial de longa duração,
orçamento trilionário
e provavelmente não volta”.

O amor platônico depende de autocontrole.
O plutônico depende de física, matemática e boa vontade do universo.

Platão apostava na mente.
Plutão aposta na distância.

Ambos são ideias,
mas só um deles vem com garantia científica
de que não vai se materializar sem aviso.

Além disso, Plutão é frio.
Muito frio.
Cerca de −229 °C.

Temperatura perfeita
para congelar expectativas,
dramas
e qualquer tentativa de aproximação exagerada.

Em resumo:
o amor platônico pode virar real
porque a pessoa está ali, próxima, possível, irresistível.

O amor plutônico não.
Ele está conceitualmente perfeito
e fisicamente inalcançável.

O que, convenhamos,
é o melhor dos dois mundos.

Era isso.

Não foi desabafo.
Foi apenas uma análise técnico-afetiva
com base em filosofia, astronomia
e zero intenção de pouso. 

Comentários

  1. ACHEI MUUUUUUIIIITOOOO BOM SEU TEXTO! TEM GENTE QUE ASSIM MESMO!GOSTEI DA SUA CORAGEM DE ESCREVER ISSO! JÁ SOU SUA FÃ...RSRRSRSRSRSRSR

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  2. Oi Aline, td bem? sou eu Sandro, sempre penso em você, ai resolvi procura-la na net, e te achei. Sinto muita saudades de voce, precisamos nos falar, bejusssss

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