PARA TUDO NA VIDA EXISTE MASTER CARD.
Bom, muito bom.
(Eu, tentando não entrar em colapso nervoso logo antes do café.)
São apenas continhas pra pagar.
Continhas básicas.
Pedaços de papel com alguns números.
Milhares deles.
Números que, curiosamente, nunca são pequenos, redondos ou simpáticos. Sempre números com personalidade agressiva.
Mas desde quando eu — uma arquiteta formada numa escola de Engenharia — tenho medo de números?
Números sempre fizeram parte da minha vida. Plantas, cálculos, metragem, orçamento…
O problema é quando os números resolvem me cobrar afeto, atenção e parcelas infinitas.
No meu melhor estilo autoajuda fajuta versão O Segredo, tento me convencer de que envelopes escritos “Contas a Pagar” são, na verdade, “Cheques Divinos Prestes a Cair na Minha Conta”.
Visualizo. Mentalizo. Atraio.
(O universo, claramente, me ignora.)
Nesse momento, percebo que estou oficialmente me tornando uma idiota perfeita, mas sigo firme. Persistência é tudo.
Começo então a revisitar meus “gastos desnecessários”, tentando adivinhar quanto vão custar esses números antes de abrir o envelope.
Esse exercício sempre termina do mesmo jeito: comigo tentando me inocentar no tribunal da minha própria consciência.
Desnecessários?
Vamos com calma. Não exageremos.
Aquele casaco lindíssimo da Le Lis não tem nada de desnecessário. Curitiba é fria. Muito fria.
Além disso, frio mata. Logo, o casaco foi um investimento em longevidade.
(Tá… e aí fui obrigada a comprar aquela bota pra combinar. Estética também é saúde emocional.)
A camisa de seda com 20% de desconto?
Necessária.
Afinal, recusar desconto é praticamente um pecado capital.
A bermuda de listras verticais que, além de emagrecer meus glúteos, estava com 50% off?
Híper necessária.
Inclusive, se eu tivesse que fazer uma lipo pra resolver aquilo ali, custaria cem vezes mais.
Portanto, além de estilosa, fui financeiramente responsável.
Economia criativa.
Cadernos (essenciais — como eu iria anotar meus surtos?).
Brincos (indispensáveis pra parecer uma pessoa minimamente feminina).
Sandália em promoção (urgente, porque promoção não espera).
Enquanto isso, o envelope segue ali.
Meigo.
Elegante.
Tranquilo demais para quem vai destruir uma alma.
Apoiando-se calmamente sobre a minha mesa, como quem diz:
“Quando você estiver pronta para sofrer, eu estarei aqui.”
Respiro fundo e tomo coragem.
(Quem vê pensa que é uma carta vinda diretamente do Inferno.
Mas no fundo… era.)
Abro.
Meu Deus.
A folha está mais preta do que branca de tantos números.
Números empilhados, alinhados, organizados com crueldade matemática.
Claro que antes vem aquela ladainha do banco, me agradecendo, dizendo o quanto é uma honra me ter como cliente, blá, blá, blá.
Me emociono.
Por um breve segundo, acho que sou a única pessoa no mundo que dá tanta satisfação financeira pra um banco tão… tão… tão capitalista (?).
Um relacionamento sólido, duradouro e claramente abusivo.
(Nesse momento, já estou suando frio, com dor de barriga e revendo mentalmente cada compra feita desde 2007.)
Ah… um alívio!
Tem algo errado ali.
EXPAND.
Faz três meses que eu não entro na Expand!
Viu?
Falei!
Tá tudo errado!
Essa conta não é minha!
(Maluf, sempre uma inspiração)
Eles só podem ter errado o destinatário. Só pode.
Mas sejamos honestas: os R$ 40,00 gastos na Expand não fariam nem cócegas naquele valor final obsceno.
Aquilo ali era um tapa financeiro com luva de veludo. Com estiletes.
Calma, Aline.
Mantenha o controle como você sempre faz.
(Manter eu sei. O problema é quando eu perco.)
Vamos às opções disponíveis nesse momento de lucidez questionável:
– Posso fingir que morri.
(Deve ser simples. Só não sei como avisar o banco.)
– Posso colocar a culpa nos Correios do Brasil e dizer que nunca recebi nada.
(E nunca mais receber absolutamente nada, o que seria um bônus.)
– Posso descolorir o cabelo inteiro, colocar lentes azuis e dizer que não sou eu.
(Claro, com identidade falsa. Detalhe.)
– Sempre existe a opção de ir morar no exterior.
(Mas morar fora sem cartão de crédito? Como faz?)
Respiro fundíssimo.
Daqueles que quase causam tontura.
Cogito fazer um concurso pra Magistratura ou para Cartorário.
Em qualquer estado.
Aí lembro que não fiz Direito.
(Sua burra.)
Nesse ponto, já estou pálida, boca roxa, taquicardia, mãos suando e uma leve sensação de morte iminente — nada fora do normal para uma terça-feira.
E então pondero:
Não tem muito o que fazer, né?
Tem que pagar.
Tem que pagar.
E entra, pontual como sempre, minha justificativa imbecil favorita (minha pra mim mesma):
“Aline… você trabalha tanto pra quê?
Se você não puder comprar essas coisinhas super necessárias que você gosta, vai fazer o quê?
Então pra quê trabalhar assim?”
Essa frase…
Sempre me consola.
É praticamente um mantra financeiro suicida.
Pago a fatura.
(Com uma felicidade superficial, seguida de uma pontada discreta no peito e uma leve perda de esperança.)
Olho o saldo da conta.
Me angustio.
Pego minha bolsa…
E vou ao shopping fazer umas comprinhas pra ver se eu melhoro.
Porque se é pra sofrer,
que seja bem vestida.



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