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EPÍLOGO






 Eu tinha rasgado o mapa.

Naquele dia, achei que aquilo bastaria. Foi por impulso, mas aquela cidade me causava medo. Ao mesmo tempo, alguma coisa ainda me atraía para dentro dela.

Era uma providência razoável: sem mapa, sem caminho; sem caminho, sem retorno.

E havia o medo. Muito medo.

Foi uma decisão tomada sem consulta pública e aprovada por unanimidade por uma comissão formada exclusivamente por mim.

Uma dessas soluções urbanísticas que não aprendemos na Faculdade. Aprendemos no dia a dia, caminhando e sentindo cada lugar por onde passamos.

Só esqueci de considerar que certos trajetos, depois de percorridos muitas vezes, deixam de depender de mapa.

A gente decora.

Não os nomes das ruas, necessariamente, mas os acidentes do percurso. A esquina onde é preciso diminuir a velocidade. A avenida que parece levar ao centro, mas muda de direção sem aviso e me deixa completamente perdida.

Essa cidade sempre teve um desenho urbano bastante particular.

Seu traçado não obedecia a nenhuma lógica conhecida. As avenidas começavam largas e terminavam abruptamente, como se levassem a um vazio. Algumas ruas davam voltas desnecessárias para desembocar exatamente no ponto de partida. Havia acessos aparentemente públicos que, examinados de perto, eram particulares. E certas áreas da cidade pareciam permanentemente destinadas a uma futura expansão que nunca acontecia. Não por falta de projeto, mas por medo de errar na execução.

Mesmo assim, era interessante.

Muito.

Talvez por isso eu tenha voltado.

Não para morar. Essa nunca foi a intenção.

Voltei como se volta a uma cidade onde alguma coisa nossa permaneceu: com a pretensão civilizada de quem acredita que conseguirá apenas caminhar pelas ruas, observar as fachadas e ir embora antes que anoiteça. Como uma despedida de quem já sabia que não voltaria mais.

A cidade continuava praticamente igual.

Reconheci o desenho das quadras, as fachadas claras, os recuos generosos, algumas construções excessivamente protegidas por muros e outras que pareciam ter sido projetadas justamente para convidar quem passava a entrar.

A iluminação também continuava impecável.

Ela sempre soube iluminar muito bem aquilo que não podia oferecer.

Esse talvez fosse seu maior talento urbanístico.

Havia praças lindas onde não era permitido permanecer, mirantes sem estacionamento, calçadas que terminavam sem explicação e terrenos magníficos classificados para usos incompatíveis com qualquer projeto sensato.

Naquela última passagem, percorri lugares aos quais antes nunca tinha tido acesso.

Algumas ruas finalmente estavam abertas. Portões que eu sempre encontrara fechados já não estavam.

Entrei.

Sem cerimônia. Sem solenidade. Sem conexão.

Era curioso conhecer por dentro uma parte da cidade que, durante tanto tempo, eu apenas contornara. Chegar ali por um atalho, sem precisar percorrer todas as suas ruas.

Não encontrei nenhuma revelação.

Talvez porque estivesse agindo em autodefesa.

As estruturas estavam lá, exatamente como deveriam estar. Os ambientes tinham proporções corretas, as circulações funcionavam, nada parecia prestes a desabar.

Mas arquitetura não é só espaço.

Arquitetura é conexão. É contato.

Uma construção pode atender perfeitamente ao programa e, ainda assim, não conseguir transformar espaço em lugar.

Talvez tenha sido isso.

Ou talvez eu simplesmente não quisesse gostar de estar lá.

Saí novamente para a rua e continuei andando.

A cidade permanecia interessante.

Essa constatação me incomodou mais do que eu gostaria.

Eu não queria nunca mais voltar.

Seria muito mais fácil descobrir que eu havia me enganado sobre ela. Encontrar fachadas deterioradas, problemas de fundação, alguma patologia construtiva irreversível que justificasse uma interdição definitiva.

Não havia.

Mas eu precisava parar de passar por lá.

Essa seria a última visita.

A Cidade dos Desvios continuava tendo aquela mesma luz, os mesmos edifícios, as mesmas perspectivas que faziam certas ruas parecerem especialmente bonitas quando vistas de longe.

Ela simplesmente não havia sido planejada para permanências.

Tudo nela favorecia o trânsito.

Chegadas, partidas, retornos ocasionais, conversões proibidas, pequenas paradas em lugares onde provavelmente havia uma placa dizendo que não se podia estacionar.

Não era uma cidade de permanência.

E eu nunca pensei em permanecer.

Simplesmente porque existem lugares onde determinados projetos não são permitidos.

Naquela noite, deixei a Cidade dos Desvios sem receio de sua geografia.

Pela primeira vez, também não tentei corrigi-la.

Não redesenhei avenidas.

Não propus novas conexões.

Não procurei uma alteração no zoneamento nem tentei descobrir alguma brecha no Plano Diretor.

A cidade era aquela.

E talvez parte de sua beleza viesse justamente disso.

Na saída, encontrei no bolso um pedaço do mapa que eu jurava ter rasgado por inteiro.

Reconheci imediatamente algumas ruas.

Ainda sabia chegar.

Dobrei o papel com cuidado e guardei outra vez.

Não havia motivo para destruí-lo.

Mapas não obrigam ninguém a viajar.

Antes de cruzar os limites da cidade, olhei uma última vez pelo retrovisor.

Continuava bonita.

Provavelmente continuará.

Existem cidades das quais não precisamos deixar de gostar.

Apenas não passar mais por elas.

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