Sempre achei que Durkheim tivesse escolhido o lugar errado para estudar a sociedade.
Universidades? Praças? Instituições?
Nada disso.
Se ele tivesse passado uma única manhã num prédio com 399 apartamentos em plena fase de reforma, teria economizado anos de pesquisa.
O cenário é simples: três elevadores. Mas apenas um chega aos subsolos. O que, na prática, significa que quase quatrocentos apartamentos em obra compartilham um único elevador capaz de transportar marceneiros, marmoristas, pintores, gesseiros, eletricistas, carrinhos de ferramentas, chapas de MDF, portas, bancadas, espelhos, caixas, escadas e, eventualmente, seres humanos.
E existe um detalhe importante: é justamente nos subsolos que se consegue estacionar um carro de carga.
Imagine, portanto, quase quatrocentos apartamentos sendo feitos ao mesmo tempo.
Agora imagine a quantidade de carros de carga. Depois imagine todo mundo querendo usar o mesmo elevador.
Houve uma época em que alguns prestadores levavam dias para conseguir subir todo o material. Não por falta de competência. Por falta de elevador.
A marcenaria, por exemplo, passou a ter duas etapas: fabricar os móveis e conseguir levá-los até o apartamento.
A segunda nem sempre era a mais rápida.
Foi nesse período que descobri uma coisa: não existe “vou passar rapidinho na obra”. Você pode até passar rapidinho.
O elevador, não.
Se preciso subir apenas para buscar uma trena, já sei que devo reservar um período razoável da minha vida para isso.
A trena leva quinze segundos para ser encontrada; o elevador leva vinte minutos para aparecer e, depois, para em sete andares. No fim, passo mais tempo tentando chegar à trena do que usando a trena.
Com o tempo, comecei a perceber que alguns fenômenos se repetiam com tanta precisão que já não podiam ser considerados mero acaso.
O Princípio da Contrariedade Vertical
O primeiro deles batizei de Princípio da Contrariedade Vertical.
Sua definição é simples: o elevador jamais estará indo na direção em que você precisa.
Se você quer subir, ele está descendo. Se quer descer, ele está subindo. Se, por algum raro desalinhamento do universo, ele estiver finalmente indo na sua direção, estará lotado. É uma lei tão confiável quanto a gravidade.
A Teoria da Compressão Humana
Depois existe a Teoria da Compressão Humana. O elevador chega, a porta abre e está completamente lotado. Você olha para dentro e pensa: “Pronto. Agora não entra mais ninguém.”
Entra.
Sempre existe alguém absolutamente convencido de que seu corpo ocupa o mesmo espaço de um envelope. A pessoa olha para quinze seres humanos espremidos, duas malas, um cachorro, um carrinho e uma chapa de MDF e conclui: “Cabe.”
E entra. Respira de lado, recolhe o abdômen, pede licença e, milagrosamente, cabe. A capacidade humana de ignorar limites físicos é fascinante.
O Fenômeno da Porta Invertida
Há também o fenômeno da Porta Invertida.
A porta abre, você vai sair, mas alguém já está entrando.
Não importa que exista uma regra elementar de circulação segundo a qual, para que alguém entre em determinado espaço, talvez seja interessante permitir primeiro que as pessoas que estão dentro saiam.
Não.
Há quem considere isso preciosismo.
A porta abre e a pessoa simplesmente avança. Você sai sendo atropelado por alguém que poderia perfeitamente ter esperado dois segundos. A confiança dessa gente na possibilidade de dois corpos ocuparem simultaneamente o mesmo lugar no espaço é comovente.
O Guardião da Saída
E existe ainda o Guardião da Saída. É aquela pessoa que será a última a descer e que, naturalmente, escolhe ficar exatamente na frente da porta.
O elevador para no terceiro.
Ela não sai.
Você tenta sair.
Ela não se move.
Para no quinto. Duas pessoas precisam sair.
Ela continua ali.
No oitavo, começa a parecer que aquela pessoa não está indo a lugar nenhum. Foi contratada pelo condomínio exclusivamente para dificultar a circulação.
Enquanto tudo isso acontece, o elevador para em todos os andares. Depois de algum tempo lá dentro, você já não sabe se está indo buscar uma amostra de tecido ou fazendo uma viagem interestadual.
Há dias em que entro no elevador pela manhã e tenho vontade de avisar à família que estou bem.
Àquela altura, já criei vínculos afetivos com metade dos passageiros. Sei quem está esperando a bancada da cozinha, quem comprou um sofá grande demais, quem está atrasado, quem já perdeu a paciência, quem está reformando o 1204 e quem definitivamente nasceu sem nenhuma noção de circulação.
Tudo isso sem trocar uma única palavra.
Quando as obras acabam, começa outro experimento
Mas então as obras foram terminando e começou uma nova fase do experimento.
Como muitos apartamentos funcionam com aluguel por temporada, há uma rotatividade enorme de hóspedes.
O elevador deixou de transportar apenas moradores e prestadores de serviço.
Passou a transportar personagens.
Cada vez que a porta abre, surge uma nova amostragem da espécie humana.
Em uma viagem entra um executivo impecavelmente vestido.
Na seguinte, um turista completamente perdido.
Depois, uma família com malas suficientes para uma mudança transcontinental.
Um cachorro.
Uma criança.
Um entregador.
Alguém que claramente está voltando de uma festa.
Outro que aparentemente ainda não voltou dela.
Às vezes surge alguém de roupão.
Às vezes, de pijama.
E, ocasionalmente, aparece uma pessoa com mais de quarenta anos circulando tranquilamente pelas áreas comuns de pijama de ursinho e pantufas.
Não estou julgando. Estou apenas registrando os fatos para fins científicos.
Há ainda encontros cuja natureza, profissão e horário me recomendam apenas manter a descrição no campo da observação sociológica.
A alta rotatividade produz uma coisa curiosa: você nunca sabe exatamente quem mora ali, quem está hospedado, quem trabalha ali, quem veio visitar alguém ou quem simplesmente entrou no elevador e talvez esteja tentando sair desde terça-feira.
Meus pensamentos intrusivos...
Imagino Durkheim, discretamente, encostado num canto, com um pequeno caderno nas mãos.
No primeiro dia, observando.
No segundo, classificando comportamentos.
No terceiro, tentando encontrar padrões.
No quarto, já não anotando mais nada. Apenas olhando fixamente para o painel luminoso, esperando o “T” aparecer como quem aguarda uma libertação metafísica.
Durkheim provavelmente tentaria compreender as normas invisíveis que organizam aquele pequeno espaço.
Por que algumas pessoas esperam os outros saírem?
Por que outras entram atropelando?
Por que alguém dá bom-dia e ninguém responde?
Por que quinze pessoas conseguem permanecer juntas durante vários minutos olhando fixamente para os números dos andares como se “7... 8... 9...” fosse a programação mais interessante já produzida pela humanidade?
E, sobretudo: por que a pessoa que vai descer por último insiste em ficar na porta?
Imagino Durkheim anotando freneticamente, até que o elevador para. A porta abre. Ninguém sai. Ninguém entra. Só aquele breve vento de indecisão coletiva. A porta fecha. Ele olha para mim. Eu olho para ele. Ninguém sabe por que paramos ali. Seguimos.
No andar seguinte, entra um homem carregando uma peça de MDF quase do tamanho do elevador. Durkheim guarda o caderno. No próximo, alguém tenta entrar antes de conseguirmos sair. Ele respira fundo.
Mais dois andares e alguém grita lá de fora: “Segura!”
Seguramos.
Surge um carrinho. Depois três caixas. Uma mala. E uma pessoa caminhando lentamente pelo corredor, sem demonstrar qualquer preocupação com os quinze desconhecidos que interromperam suas vidas para esperá-la.
Durkheim olha para a escada de emergência. Olha para o elevador. Olha novamente para a escada. E, pela primeira vez na história da Sociologia, não tenta formular uma teoria. Apenas toma uma decisão:
— Vou pela escada.
Mas não vai.
A porta fecha antes.
E ele fica, como todo mundo, preso no mesmo experimento.
Uma amostra da humanidade
Depois de frequentar esses prédios, cheguei à conclusão de que o elevador não liga apenas andares. Liga universos.
Durante alguns minutos, pessoas que jamais se escolheriam para dividir uma conversa são obrigadas a dividir pouco mais de um metro quadrado. Algumas sorriem. Outras fingem que ninguém existe. Umas pedem licença. Outras atropelam. Algumas percebem que o elevador está lotado e esperam o próximo. Outras enxergam dezessete pessoas espremidas e pensam: “Se todo mundo colaborar, eu entro.”
E entram.
Todos acreditam estar apenas indo do térreo ao décimo quinto andar. Mas ali, comprimida entre malas, moradores, prestadores de serviço, hóspedes, cachorros, chapas de MDF e um adulto de pijama de ursinho, está uma amostra bastante razoável da humanidade.
Talvez Durkheim tivesse mesmo escolhido o lugar errado para estudar a sociedade. Não precisava de tantos livros.
Precisava apenas de um prédio com 399 apartamentos, três elevadores e bastante tempo disponível.
Principalmente porque só um deles desce até o subsolo.

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