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VIDA ADULTA

 



Existe uma fase da vida em que você percebe uma coisa muito curiosa: deveria estar pior.

Foi exatamente isso que me contaram.

Disseram que, depois de certa idade, tudo começaria a desandar. A memória, os joelhos, o metabolismo, a paciência, a pele, a disposição e, provavelmente, o Wi-Fi também.

Só esqueceram de avisar que, junto com algumas dessas pequenas tragédias, acontece um fenômeno bastante interessante: a gente melhora.

Não em tudo, claro. Também não vamos exagerar.

O joelho continua negociando diariamente com a gravidade e duas folhas de alface ainda conseguem produzir o mesmo efeito de três potes de doce de leite.

Mas existe uma versão da gente que só aparece depois de um certo tempo de estrada. E, sinceramente, ela é muito mais interessante do que aquela criatura insegura dos vinte e poucos anos.

Hoje eu passo três camadas de rímel e salto para ir à farmácia.

No dia seguinte, vou trabalhar de tênis, cabelo desgrenhado e uma serenidade que a minha versão de trinta anos jamais compreenderia.

Olho no espelho umas trinta vezes por dia para conferir se apareceram rugas novas. À noite, chego à conclusão de que surgiram pelo menos quatro desde o café da manhã. No dia seguinte, elas desaparecem. Acho que as rugas também têm crises de identidade.

Descobri que meus óculos deixaram de ser um acessório. Agora fazem parte da anatomia. Sem eles, corro sérios riscos. Com eles também, porque passo boa parte do tempo procurando os benditos enquanto eles permanecem, tranquilamente, em cima do meu nariz.

Ler um livro virou uma experiência coletiva. Eu leio um capítulo. Minha memória lê outro completamente diferente. Quando volto no dia seguinte, preciso recomeçar porque nenhum dos dois sabe mais o que aconteceu.

Trocar uma balada por um sofá deixou de ser sinal de velhice. Virou demonstração de inteligência. Certeza que o sofá não toca Sertanejo Universitario às duas da manhã.

Aliás, hoje só aceito convites depois da pergunta mais importante da noite:

— Tem lugar para sentar e algo para comer?

Reencontrar os amigos da escola também é uma experiência curiosa. Tenho a sincera impressão de que todos envelheceram muito mais do que eu. Não faço ideia se isso é autoestima, miopia ou delírio. Prefiro não investigar.

Também desenvolvi um talento especial para comprar exatamente a mesma calça em quatro cores diferentes. Se uma deu certo, por que brincar com o destino?

Na academia, faço questão de deixar um peso absurdamente alto no aparelho quando termino o exercício. Não muda absolutamente nada na minha vida, mas gosto de imaginar que alguém vai pensar: "Nossa..."

Provavelmente ninguém pensa.

Mas também não custa imaginar.

Descobri que atender telefone é uma atividade de alto risco. A pessoa fala durante quinze minutos e, nos primeiros trinta segundos, eu já estou irritada porque ela não mandou uma mensagem. Quando desligo, não lembro de uma única palavra da conversa.

Áudios longos, então, deveriam pagar imposto.

Também percebi que não preciso mais implorar afeto de ninguém. Afeto perde completamente o valor quando precisa ser solicitado. As melhores coisas da vida sempre chegam sem solicitação.

Passei anos preocupada com coisas absolutamente inúteis. Como esconder a bunda com um casaco amarrado na cintura quando ia à academia.

Hoje tenho preocupações muito mais sofisticadas. Tipo descobrir onde deixei a chave do carro cinco minutos depois de guardá-la.

A bolsa virou uma espécie de kit de sobrevivência. Tem remédio, carregador, álcool em gel, caneta, fita métrica, Lysoform... Não duvido que, em algum momento, apareça um martelo lá dentro. E vou achar perfeitamente normal.

Continuo parcelando compras em dez vezes sem juros mesmo podendo pagar à vista. Não é falta de dinheiro. É porque oferecer 3% de desconto para pagamento à vista chega a ser uma ofensa à inteligência.

Vou ao psiquiatra com a mesma naturalidade de quem vai ao supermercado.

Converso sobre sexo sem ficar roxa de vergonha.

Posso almoçar com as amigas onde eu quiser, no dia que eu quiser.

E descobri que paz de espírito vale muito mais do que ganhar uma discussão.

Ainda tenho medo de não dar conta das contas. Acho que esse medo vem instalado de fábrica na vida adulta. Os boletos são, talvez, a única instituição realmente organizada deste país.

Mas, curiosamente, hoje rio muito mais.

Rio das amigas.

Rio de mim.

Rio quando esqueço por que entrei na cozinha.

Rio quando procuro os óculos que estão no rosto.

Rio quando compro um creme caríssimo acreditando que ele fará milagres e, dois dias depois, descubro uma ruga nova que claramente não assinou esse contrato.

Talvez a vida adulta seja exatamente isso.

Descobrir que o tempo leva algumas coisas, é verdade.

Mas, em troca, entrega uma liberdade deliciosa de não precisar mais impressionar ninguém.

No fim, o tempo é inexorável. A vaidade também. A única diferença é que hoje eu já consigo rir das duas.

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