Cheguei à cidade por acidente.
Não havia planejado a viagem, mas, por um desvio de rota, acabei conhecendo-a.
O destino apenas a colocou no meu caminho, como acontece com certos lugares que acabam entrando na nossa vida sem pedir licença.
Confesso que, naquele primeiro dia, fui embora sem entender muito sua urbanidade. Não encontrei uma arquitetura exuberante, não havia monumentos grandiosos aparentes nem paisagens capazes de justificar uma mudança de rota.
Era uma cidade discreta.
Tão discreta que quase passava despercebida.
Se me perguntassem naquela noite o que eu havia achado, provavelmente responderia que era agradável, organizada e só.
Hoje penso que algumas cidades têm a inteligência de não revelar tudo na primeira visita.
Voltei.
A princípio porque existia um motivo perfeitamente razoável para isso. Depois, porque sempre surgia algum detalhe que parecia merecer uma segunda observação. Uma rua vista sob outra luz, uma fachada para a qual eu não havia prestado atenção, um pequeno desvio que prometia encurtar o caminho e acabava prolongando a caminhada.
Quando percebi, eu já conhecia parte do traçado da cidade.
Já estava lá dentro.
Sabia onde algumas ruas terminavam, reconhecia determinadas esquinas e conseguia antecipar o desenho de certas avenidas antes mesmo de alcançá-las.
Ainda assim, a sensação era sempre a de estar chegando pela primeira vez.
Existe um tipo curioso de cidade que nunca se entrega completamente.
Você passa inúmeras vezes pela mesma praça e, de repente, descobre uma árvore que jurava não existir. Caminha pela mesma calçada e encontra uma janela que nunca havia notado. Não porque ela tenha surgido ali de um dia para o outro, mas porque algumas paisagens escolhem o momento em que desejam ser vistas.
Aquela era assim.
Demorei para entender que o encanto não estava na beleza.
Era outra coisa.
Por fora, a cidade conservava uma elegância quase burocrática. As linhas eram discretas, as cores contidas, como se nada ali tivesse sido pensado para seduzir.
As cidades mais perigosas raramente anunciam o risco. Quase sempre têm fachadas comuns, ruas tranquilas e uma rotina capaz de convencer qualquer visitante de que ali nada extraordinário acontece.
O problema começa quando se permanece tempo suficiente.
Alguns lugares escondem uma temperatura própria.
Sob aquela aparência serena havia uma energia difícil de explicar, uma corrente subterrânea que atravessava ruas, fachadas e silêncios. Não era algo que se via. Era algo que se sentia. Como se toda a cidade respirasse alguns graus acima do restante do mundo.
Era impossível caminhar por aquelas ruas sem a estranha sensação de que alguma coisa estava sempre prestes a acontecer.
Talvez nunca acontecesse.
Mas talvez fosse justamente essa expectativa permanente que tornasse a cidade tão irresistível.
Algumas cidades são bonitas de imediato. Outras vão ocupando espaço lentamente, até que, sem perceber, você já conhece o ritmo dos semáforos, o silêncio das manhãs e o jeito como a luz atravessa determinadas ruas no fim da tarde.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Não consigo recordar o cheiro dos jardins.
Também não me lembro do perfume das árvores depois da chuva.
Curiosamente, a lembrança mais nítida que guardo daquela cidade é justamente a ausência de qualquer tentativa de impressionar. Ela não parecia perfumar o ar para agradar os visitantes. Conservava um cheiro próprio, discreto, quase imperceptível para quem passasse depressa.
Talvez seja por isso que tantas pessoas nunca compreendam certas cidades.
É preciso caminhar devagar para perceber aquilo que não faz questão de ser notado.
Passei a inventar pequenos pretextos para voltar.
Às vezes havia realmente algo a resolver. Outras vezes, bastava uma dúvida mínima, um detalhe quase irrelevante ou a impressão de que alguma rua merecia ser percorrida outra vez.
Nunca soube ao certo se eu procurava a cidade ou se apenas gostava da pessoa que me tornava quando estava dentro dela.
Essa é uma distinção importante.
Há lugares que transformam o viajante sem alterar um único edifício.
Com o tempo, deixei de observar as construções.
Passei a observar os intervalos.
As distâncias entre uma rua e outra.
Os silêncios.
A maneira como determinadas esquinas pareciam alongar os minutos enquanto outras faziam o tempo correr depressa demais.
Nenhum mapa registra esse tipo de geografia.
Os mapas medem quilômetros.
Durante muito tempo achei que conhecia suficientemente bem aquela cidade.
Era um engano confortável.
Sempre aparecia um bairro que eu ainda não havia explorado, uma rua escondida entre duas avenidas importantes, uma passagem estreita que parecia existir apenas para quem caminhava sem destino.
Nunca consegui decidir se a cidade era realmente maior do que eu imaginava ou se era a minha curiosidade que ampliava seus limites.
Talvez as duas coisas.
Também aprendi que ela mudava conforme o horário.
Não falo da luz.
Toda cidade muda de cor quando o dia termina.
Falo de uma mudança mais difícil de explicar.
Havia dias em que tudo parecia próximo.
Em outros, os mesmos caminhos se tornavam longos, como se a distância entre dois quarteirões dependesse menos da engenharia e mais da disposição de quem caminhava.
Aceitei isso sem fazer perguntas.
Continuei voltando.
Sem fazer planos.
Sem imaginar permanências.
Nunca pensei em morar ali, apenas correr por suas ruas até sentir que precisaria parar para não sentir falta de ar.
Alguns lugares cumprem melhor seu destino quando permanecem apenas como passagem.
Durante muito tempo carreguei a impressão de que ainda existia uma última rua esperando por mim.
Apenas um pequeno trecho do mapa que explicaria todos os outros.
Essa rua não apareceu.
Um dia percebi que minhas visitas haviam terminado.
O encerramento do percurso foi anunciado antes do último bairro.
Sem despedida.
Sem um último passeio por suas ruas.
Elas continuaram onde sempre estiveram. As fachadas permaneceram de pé. As praças provavelmente continuaram recebendo o sol da mesma maneira.
Voltei para casa levando o mapa dobrado dentro da bolsa.
Abri-o algumas vezes.
Conhecia aquele trajeto de memória.
Sabia exatamente por onde começar.
Rasguei o mapa porque conhecia bem demais a viajante.
Sabia que, enquanto aquele caminho permanecesse desenhado, eu acabaria encontrando uma justificativa qualquer para percorrê-lo outra vez.
Sem o mapa, sei que jamais existirá um recuo.
Não porque ela tenha desaparecido.
Mas porque já não existe nenhum caminho que me conduza até lá.
E eu prefiro não voltar.
Eu não quero voltar.

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